Solos Mediterrâneos Vermelhos e Amarelos de Materiais Não Calcários

Solos Mediterrâneos Vermelhos e Amarelos de Materiais Não Calcários
Descrição-geral das Famílias
Os Solos Mediterrâneos Vermelhos e Amarelos de Materiais Não Calcários subdividem-se nas seguintes 8 Famílias:
- de gneisses ou rochas afins (Vgn)- de rochas cristalofílicas básicas (Pv)- de xistos (Vx)- de material coluviado de solos derivados de xistos (Pvx)- de arenitos (Vtc)- de "rañas" ou depósitos afins (Sr)- de "rañas" ou depósitos afins, com materiais lateríticos (Sr*)- de dioritos ou quartzodioritos ou rochas microfaneríticas afins (Vm) .
As duas últimas pertencem a Subgrupos diferentes dos das 6 anteriores.
As descrições gerais destas Famílias são apresentadas nas páginas seguintes.
Solos Mediterrâneos Vermelhos ou Amarelos de gneisses (Vgn)
Horizonte A1 -20 a 30 cm; pardo-avermelhado; franco-arenoso ou franco; estrutura granulosa fina fraca; friável; pH 5,0 a 6,0. Transição gradual para
Horizonte B - 15 a 40 cm; pardo-avermelhado ou vermelho-amarelado; franco ou franco-argiloso; estrutura granulosa média moderada a fraca; friável a firme; pH 5,0 a 6,0. Transição gradual para
Horizonte C - Material originário: material grosseiro proveniente da desagregação de gneisses ou de rochas afins.
Solos Mediterrâneos Vermelhos ou Amarelos de rochas cristalofílicas básicas (Pv)
Horizonte A1 - 15 a 30 cm; pardo-avermelhado, castanho-avermelhado ou vermelho; franco-argiloso ou, por vezes, franco; estrutura granulosa fina a média moderada a forte; friável; pH 5,5 a 7,0. Transição nítida para
Horizonte B - 10 a 40 cm; vermelho, vermelho-escuro ou castanho-avermelhado; argiloso; estrutura subangulosa fina ou média moderada a forte; há algumas películas de argila nas face;, dos agregados; firme; pH 5,5 a 7,0. Transição gradual para
Horizonte C - Material originário: mistura de material semelhante ao do horizonte anterior com fragmentos de rocha, fazendo transição para a rocha-mãe (rochas cristalofílicas básicas).
Solos Mediterrâneos Vermelhos ou Amarelos de xistos (Vx)
Horizonte A1 - 15 a 25 cm; pardo-avermelhado ou vermelho; franco ou franco-argiloso; estrutura granulosa fina fraca a moderada; fiiável; pH 5,0 a 6,0. Transição gradual para
Horizonte B - 20 a 50 cm; vermelho-escuro, pardo-avermelhado ou vermelho-amarelado; argiloso; estrutura granulosa média moderada ou anisoforme subangulosa fina moderada; vêem-se algumas películas de argila nas faces dos agregados; firme; pH 5,0 a 6,0. Transição gradual ou difusa para
Horizonte C - Material originário: mistura de material semelhante ao do horizonte anterior com fragmentos de rocha, fazendo transição para a rocha-mãe (xistos argilosos ou xistos cristalofílicos não básicos).
Por vezes aparecem, subjacentemente ao horizonte C, camadas que muito se assemelham à "argile tachetée" dos franceses.
Solos Mediterrâneos Vermelhos ou Amarelos de material coluviado de solos derivados de xistos (Pvx)
Horizonte A1 -20 a 30 cm; pardo-avermelhado ou pardo-amarelado; franco com bastantes elementos grosseiros rolados ou subangulosos (quartzitos e xistos); estrutura granulosa fina fraca a moderada; friável a firme; pH 5,0 a 6,0. Transição gradual para
Horizonte BC -Espessura variável, em geral superior a um metro; semelhante ao anterior, mas de cor mais avermelhada ou mais amarelada, de consistência firme e com maior percentagem de argila; notam-se algumas películas de argila nas faces dos agregados.
Solos Mediterrâneos Vermelhos ou Amarelos de arenitos (Vtc)
Horizonte A1 - 20 a 30 cm; pardo ou pardo-amarelado, por vezes com alguns fragmentos rolados de quartzitos (cascalho ou pedras miúdas); franco-arenoso a franco-argilo-arenoso; estrutura granulosa média fraca; friável; pH 7,0 a 8,0. Transição, o gradual para
Horizonte B - 15 a 60 cm; amarelo, amarelo-avermelhado, pardo-avermelhado ou vermelho, por vezes pardo com muitas manchas pequenas muito distintas amareladas ou avermelhadas; argiloso; estrutura prismática média moderada composta de prismática fina e muito fina moderada a forte; notam-se algumas películas de argila nas faces dos agregados; firme e rijo; pH 7,0 a 8,0. Transição gradual para
Horizonte C - Material originário proveniente de arenito de grão fino.
Estes solos erosionam com facilidade, sendo vulgar o adelgaçamento da 1. a camada; nesse caso os amanhos culturais misturam os horizontes A e B e a camada superficial mostra-se então amarelada ou avermelhada mais rica em argila e entorroada, diminuindo a erodibilidade.
Solos Mediterrâneos Vermelhos ou Amarelados de "rañas" ou depósitos afins (Sr)
Horizonte A1 - 15 a 25 cm; castanho-avermelhado ou pardo-avermelhado; franco-arenoso a franco-argilo-arenoso, normalmente com alguns ou bastantes elementos grosseiros subangulosos (quartzo e quartzitos); estrutura granulosa fina moderada ou fraca; friável; por vezes com pequenas concreções ferruginosas; pH 5,0 a 6,0. Transição gradual para
Horizonte B - 20 a 50 cm; vermelho-escuro ou castanho-avermelhado ou pardo-amarelado; franco a argiloso, com maior percentagem de argila do que o horizonte A; normalmente com bastantes elementos grosseiros; estrutura anisoforme subangulosa fina moderada a fraca; existem películas de argila nas faces dos agregados; friável a firme; por vezes com pequenas concreções ferruginosas; pH 5,5 a 7,0.
Horizonte C - Material detrítico, em geral pouco consolidado, do tipo "raña".
Solos Mediterrâneos Vermelhos ou Amarelos de "rañas" ou depósitos afins, com materiais lateríticos (Sr*)
Estes solos apresentam um perfil muito semelhante aos da Família anterior (Sr), deles diferindo por apresentarem no horizonte C ou subjacentemente couraças ferruginosas e por baixo destas uma camada argilosa vermelha com muitas manchas pequenas e médias cinzentas claras (plintite não endurecida ou argila "tachetée"). Em todos os horizontes existem normalmente concreções ferruginosas de tamanho variável.
Solos Mediterrâneos Vermelhos ou Amarelos de dioritos ou quartzodioritos ou rochas microfaneríticas ou cristalofílicas afins (Vm)
Horizonte A1 -15 a 30 cm; pardo-avermelhado; franco ou franco-argilo-arenoso, quase sempre com algum saibro da rocha-mãe; estrutura granulosa média e fina moderada; aderente, plástico, friável, pouco rijo; pH 6,0 a 6,5. Transição nítida para
Horizonte B - 15 a 50 cm; vermelho ou pardo-avermelhado; franco-argiloso ou argiloso, apresentando películas de argila nas faces dos agregados; estrutura prismática grosseira forte ou moderada composta de angulosa grosseira moderada ou forte; por vezes com superfícies polidas ("slickensides"); plástico a muito plástico, firme; pH 6,5 a 7,0. Transição gradual ou nítida para
Horizonte C - Material originário proveniente da desagregação de dioritos ou quartzodioritos ou rochas microfaneríticas ou cristalofílicas afins.
Os Solos Mediterrâneos Vermelhos e Amarelos de Materiais Não Calcários desenvolvem-se em relevo normal, por vezes subnormal.
Os solos da Família Vgn são frequentes na região de Arraiolos. Os da Família Pv encontram-se nas áreas de Alter do Chão, Elvas, Montemor-o-Novo e Beja. Os da Família Vx abundam sobretudo na Serra de Ossa, na zona Beja-Mértola e na Serra de Espinhaço de Cão. Os da Família Pvx foram mais cartografados na base das encostas da Serra de S. Mamede. Os da Família Vtc existem principalmente no Sotavento do Algarve. Os das Famílias Sr e Sr* apresentam-se em manchas relativamente grandes na região de Odemira, na charneca de Garvão, na área da Tanganheira (Sines) e nas proximidades de Ferreira do Alentejo. E os da Família Vm são frequentes na região de Beja.
Na Figura 15 pode ver-se o perfil de um Solo Mediterrâneo Vermelho ou Amarelo de xistos (Vx-P. 459) fotografado próximo da Barragem da Bravura (Odeáxere, Algarve) e na Figura 16 o de um Solo Mediterrâneo Vermelho ou Amarelo de "rañas" ou depósitos afins, com materiais lateríticos (Sr*) situado nas proximidades de Tanganheira (Cercal do Alentejo).
Dados analíticos físicos e químicos
Dados analíticos relativos a 6 Perfis de 4 das Famílias atrás descritas são apresentados no Quadro 41. Um perfil pertence à segunda Família (Pv), dois à terceira (Vx) (*), um à quinta (Vtc) e dois à sétima (Sr*). Não é possível, de momento, apresentar elementos sobre perfis da primeira Família (Vgn), da quarta (Pvx), da sexta (Sr) e da sétima (Vm).
A textura das camadas superficiais destes solos é geralmente ligeira ou mediana. No horizonte B a percentagem de argila aumenta muito, dando à curva de distribuição do material coloidal a forma característica dos Solos Argiluviados. O teor orgânico é baixo, por vezes mediano em solos não sujeitos à cultura agrícola; decresce, porém, rapidamente com a profundidade. A relação C/N é baixa a atestar uma rápida decomposição dos restos vegetais ou animais. Nota-se, todavia, que a tendência, sobretudo em solos não intensivamente cultivados, é para os valores característicos do "mull" florestal (63). A quantidade de ferro livre é mediana ou elevada; a sua distribuição é nitidamente reveladora de forte migração para os horizontes inferiores em que, por vezes, a percentagem deste elemento é superior ao dobro da das camadas superficiais.
A capacidade de troca catiónica é, na maioria dos casos, baixa ou mesmo muito baixa. O ião cálcio predomina sobre os restantes. Nuns solos o magnésio tem valores muito reduzidos e noutros medianos ou até altos. O potássio de troca é, em regra, baixo enquanto o sódio, comparativamente, apresenta valores elevados. O grau de saturação, de especial significado taxonómico nestes solos, é alto ou muito alto, sempre superior a 50 %. O pH nunca é inferior a 5,0 e indica que a reacção vai de moderadamente ácida a neutra.
Há, infelizmente e por agora, relativamente poucos elementos de natureza física. Em todo o caso pode dizer-se que a expansibilidade parece ser baixa (excepto no perfil de Pv onde existe pequena percentagem de montmorilonóides e certamente nos solos Vm), a estabilidade da microestrutura elevada ou muito elevada, a capacidade de campo mediana ou alta e a capacidade utilizável dos primeiros 50 cm mediana. A porosidade da terra fina tem valores moderados e a permeabilidade é lenta ou moderada, às vezes com tendência para rápida; em condições naturais deverá, porém, ser sempre lenta nos horizontes de acumulação de argila.
Mineralogia da areia fina
Os resultados da análise mineralógica de todos os perfis de que se apresentaram dados analíticos físicos e químicos encontram-se no Quadro 42.
A reserva mineral destes solos, embora frequentemente pequena, é, por vezes, apreciável e constituída por feldspatos que se não diferenciaram. Na fracção pesada, cuja percentagem é quase sempre baixa, há apenas praticamente minerais muito estáveis. No perfil de Pv abunda o epídoto; tal facto é devidos à composição da rocha-mãe que é um xisto metamórfico epidótico. Nos restantes perfis estudados há um grande predomínio dos minerais opacos.
As diferenças qualitativas e quantitativas dos minerais pesados nos vários horizontes de cada solo não indicam diferenças no material originário; exceptua-se o caso do perfil nº 299 da Família Sr* em que parece haver uma descontinuidade litológica do horizonte B2 para o Cl. É, portanto, viável que a couraça ferruginosa do horizonte C2cn se tenha formado em material originário diferente do que deu origem aos horizontes suprajacentes que se teriam depositado mais tarde. Todavia há que acentuar que nem sempre assim deveria ter sucedido, como o prova a "suite" mineralógica do perfil nº 4 da mesma Família.

QUADRO 42
ANÁLISE MINERALÓGICA DA AREIA FINA DE SOLOS CALCÁRIOS MEDITERRÂNEOS VERMELHOS E AMARELOS DE MATERIAIS NÃO CALCÁRIOS
Unidade e perfil
Amostra número
Horizonte
Peso da areia (g)
Fracção leve
Mineralogia da fracção leve
Fracção pesada
Mineralogia da fracção pesada (%)

Mineralogia da argila
A análise química dos colóides minerais do horizonte B de quase todos os perfis atrás estudados e ainda do horizonte C, do perfil nº 299 (Sr*) é apresentada no Quadro 43. A análise térmica diferencial de quase todos esses materiais e ainda dos colóides minerais do horizonte B dos perfis n. os 251 (Vx) e 259 (Vtc) encontrasse no Gráfico 10. Os valores extraídos dos radiogramas de três daqueles materiais pode ver-se no Quadro 44.
Todas as técnicas utilizadas na identificação dos minerais da argila destes solos indicam a presença de caulinite e ilite, dominando umas vezes uma outras vezes outra, acompanhadas ou não de óxidos de ferro. Nos solos Vm, do Subgrupo Para-Barros, de que se não apresentam dados analíticos, é de presumir a existência de uma certa percentagem de montmorilonóides.
No solo Pv a análise química demonstra o, carácter sialítico da fracção argilosa e a existência de minerais do grupo 2:1. A capacidade de troca catiónica, estimada pelo processo já anteriormente referido, é de cerca de 40 m.e./100g, sugerindo ser a ilite o mineral predominante. A análise térmica diferencial mostra que há ilite, possivelmente alguma caulinite de baixo grau de cristalinidade (P = 15, E = 5,2) (113) e vestígios de montmorilonóides, o que é confirmado pelo estudo por raios X de materiais doutros solos com comportamento térmico semelhante.
Dois perfis de Vtc foram investigados. Apenas de um deles se fez a análise química. Esta sugeriu a existência de minerais 2:1 (92) e indicou um nítido carácter sialítico dos materiais. A análise térmica diferencial dos colóides desses perfis revela que há sobretudo ilite associada a alguma caulinite mal cristalizada e, num deles, "goethite". O radiograma da argila do perfil nº 259 apresenta riscas características desses três minerais, não se podendo porém afirmar se há, predomínio da ilite ou da caulinite.
Os perfis de Vx estudados possuem ilite possivelmente associada a "goethite". Assim o provaram a análise química, a capacidade de troca catiónica estimada, a análise térmica diferencial e a difracção por raios X (esta apenas de um deles). As relações Si O3/R2 O3 e Si O3 /Al2 O3 indicam um carácter fersialítico ou ligeiramente ferralítico.
Os materiais argilosos de Sr* são constituídos por caulinite (às vezes haloisite), "goethite" e/ou hematite e, possivelmente, ilite. A análise química demonstra que eles são fersialíticos ou sialíticos mas sugere, atendendo às percentagens de sílica e dos vários sesquióxidos, que há possivelmente caulinite acompanhada de óxidos de ferro (92). A capacidade de troca estimada é relativamente baixa, inferior a 20 m.e./100g. A análise térmica diferencial, por meios dos índices P e E (113) e S (205), indica que estão presentes a ilite e a caulinite e, num dos perfis, talvez a haloisite (S = 2,8). A difracção por raios X dos colóides do perfil nº 299 revelou a presença de riscas típicas da caulinite e da hematite e de algumas da ilite, faltando, porém, desta a de 10 Å.

GRAFICO 10
ANÁLISE TÉRMICA DIFERENCIAL DOS COLÓIDES MINERAIS DE SOLOS MEDITERRÂNEOS VERMELHOS E AMARELOS DE MATERIAIS NÃO CALCÁRIOS

Micromorfologia
Fizeram-se cortes delgados dos horizontes Ap e B do perfil nº 220 (Pv), dos Ap e B do perfil nº 389 (Vtc), dos A1 e B2 do perfil nº 459 (Vx) e ainda dos Ap, B, B C1 cn (couraça ferruginosa) e C2 (argila "tachetée") do perfil nº 4 (Sr*), cujo estudo micromorfológico se apresenta a seguir.
Pv -Perfil 220
Horizonte Ap (Ccrte nº 24) - O "fabric" é porfirítico do tipo porfiropéptico, nalguns pontos em transição para plectoamíctico (106).
Os grãos minerais, de areia fina mas sobretudo de limo, estão imersos num plasma denso de cor castanho-avermelhada tingido porém, na sua maior parte mas de forma parcial, de negro. O plasma é constituído por minerais da argila e óxidos de ferro. Estes estão disperses sobre aqueles ou existem concentrados em manchas negras, à luz transmitida, e vermelhas, à luz reflectida, ou em precipitações de Iwatoka (107) que são numerosas.
A porosidade é relativamente pequena e apresenta-se principalmente sob a forma de fendas estreitas, quase sempre de traçado caprichoso, algumas das quais parecem resultantes de fenómenos de contracção.
São raras as concreções ferruginosas e todas de diâmetro inferior a 0,5 mm.
Há algumas massas coloidais birrefringentes no interior dos agregados e películas de argila pouco espessas e descontínuas nas paredes das fendas ou rodeando grãos minerais.
Horizonte B (Corte nº 25) - O aspecto assemelha-se muito ao do corte anterior. Os óxidos de ferro parecem estar, porém, mais disseminados pelo plasma, dando-lhe um aspecto mais anegrado à luz transmitida. Todavia o plasma, no geral, não é isotrópico.
A grande diferença está em que são aqui abundantes, espessas e contínuas as películas de argila nas faces dos agregados, os quais se mostram anisoformes. A argiluviação é, pois, evidente até porque se observam espessamentos das películas em conscrições dos espaços intergranulares (Figura 17).
As concreções ferruginosas são, raras, mas algumas parecem envelhecidas.
Em muitas facetas a micromorfologia deste solo assemelha-se à dos "Rotlehms" de Kubiena (107) e à dos Solos Vermelhos sobre rochas eruptivas de Chipre descritos por Osmond & Stephen (146).
Vtc -Perfil 389
Horizonte Ap (Corte nº 9) - O "fabric" é porfirítico do tipo porfiropéptico (106). Acontece, porém, que o esqueleto mineral representa uma percentagem muitíssimo maior do que a do plasma, talvez na razão de 4 para 1 ou mesmo superior, tomando a microestrutura semelhante à "braced structure" de Jongerius (102).
Os grãos minerais, principalmente das fracções areia grossa e fina, estão completamente rodeados e ligados entre si por um plasma castanho-avermelhado ou negro, à luz transmitida, e alaranjado ou amarelado, à luz reflectida, o qual é constituído por minerais da argila e óxidos de ferro em que se dissemina alguma matéria orgânica totalmente humificada. Inclusas nele há, grãos de limo.
A porosidade é muito pequena.
Observam-se raras películas de argila, muito pouco espessas e descontínuas, nas faces de alguns agregados.
Horizonte B (Corte nº 10) - Neste corte, apesar de predominar ainda o esqueleto mineral, o plasma é muito abundante. O "fabric" é, na mesma, porfiropéptico (106).
Os grãos minerais, agora um pouco menos abundantes, são principalmente das fracções areia grossa e fina.
O plasma é avermelhado ou amarelado mas essencialmente birrefringente. Dominam nele os minerais da argila, sendo os óxidos de ferro menos abundantes. Imersos no plasma argiloso há inúmeras partículas de limo.
São muito frequentes as películas de argila nas faces dos agregados e nas paredes de alguns poros. Elas são espessas e contínuas, sem dúvida do tipo "illuviation cutans" (34). No interior dos agregados observam-se também estruturas coloidais birrefringentes que são ou "stress cutans" (34) ou autênticas películas de argila que obturaram antigos poros. À volta de grãos minerais, sobretudo dos de maiores dimensões, há também formações de argila fortemente orientada.
Vêem-se raras concreções ferruginosas, algumas das quais aparentam um certo envelhecimento. Nalguns pontos do plasma há precipitações de Iwatoka (107).
Vx -Perfil 4-59
Horizonte A1 (Corte nº 17) - O "fabric" é porfirítico do tipo porfiropéptico (106). Os grãos minerais, das fracções areia fina e limo e alguns da areia grossa, estão imersos num plasma denso, com raros vacúolos, mas com algumas fendas muito finas provocados por secagem.
O plasma é castanho-avermelhado mais ou menos escuro com algumas manchas quase negras. Na sua maior parte é birrefringente e constituído por minerais da argila associados a óxidos de ferro que lhe imprimem a cor avermelhada, os quais dominam as zonas negras isotrópicas ou quase. Estas têm cor vermelha viva à luz reflectida, ao passo que a restante parte do plasma se mostra de cor alaranjada. Neste abundam precipitações de Iwatcka (107) e partículas de limo.
A matéria orgânica está finamente distribuída pelo plasma, não se encontrando quaisquer restos vegetais; há, porém, alguns, embora raros, grumos orgânicos de dimensões nunca excedendo 0,2 mm, talvez dejecções da fauna do solo.
Existem numerosas concreções ferruginosas negras (à luz reflectida têm cor vermelha viva) com partículas de limo e argila inclusas. O seu tamanho vai de poucas décimas de milímetro até mais de 3 mm. Muitas são esféricas ou ovóides, algumas são oblongas; uma destas apresentava quase 1 cm de comprimento. Frequentemente aparentam sintomas de envelhecimento, isto é, estão em vias de destruição.
Nas paredes das fendas ou canais entre os agregados e principalmente à volta dos maiores grãos minerais e das concreções ferruginosas existem algumas películas de argila, por vezes de espessura apreciável, superior até a 0,1 mm. No seio dos agregados há também algumas acumulações orientadas de argila.
A porosidade não é muito baixa mas para ela contribuem apenas as fendas muito finas de secagem e, sobretudo, os espaços entre os agregados de uma estrutura granulosa.
Horizonte B2 (Corte nº 18) - O "fabric" deste corte, de que se apresenta uma fotografia na Figura 18, é porfirítico do tipo porfiropéptico (106). Os grãos minerais, quase exclusivamente das fracções limo e areia fina, estão imersos numa massa muito densa de plasma. Este é castanho-avermelhado com manchas escuras quase negras. A luz reflectida a parte avermelhada mostra-se alaranjada e a negra de cor vermelha viva. A primeira é constituída por argila com alguns óxidos de ferro e a segunda principalmente por óxidos de ferro, possivelmente hematite.
O plasma está recortado por numerosíssimas fendas provocados por contracção durante a secagem, representando estas toda a porosidade do corte que, por conseguinte, é bastante pequena. Nele se observam precipitações de Iwatoka (107).
Há um número apreciável de concreções ferruginosas negras, quase sempre com algumas partículas minerais (limo e argila) inclusas, de formas esféricas, ovóide ou oblonga. As suas dimensões são em geral inferiores a 1 mm, mas nas oblongas chega-se a 4 mm de comprimento. Algumas parecem envelhecidos, mas outras aparentam juventude, estando em plena formação.
À volta das concreções ferruginosas e dos maiores grãos minerais e ainda ao longo das fendas há muito frequentes películas de argila contínuas e espessas que chegam a atingir 0,5 mm. No interior dos agregados limitados pelas fendas de secagem há muitas estruturas birrefringentes de colóides minerais orientados. Pela maior concentração dos óxidos de ferro na parte central dos agregados há como que uma tendência para um concrecionamento geral do horizonte.
As principais características que distinguem, portanto, este horizonte do anterior são menor porosidade, maior densidade do plasma e muitíssimo maior quantidade de películas de argila e de estruturas coloidais interiores birrefringentes e orientadas.
A descrição micromorfológica deste solo corresponde grandemente às de "Rotlehm" feitas por Kubiena (107) ou por Osmond e Stephen (146). Ela parece também indicar que, além da rubefacção, o processo de laterização actuou em certa altura sobre este material (108).
Sr* - Perfil 4
Horizonte Ap (Corte nº 12) - O "fabric" é porfirítico do tipo porfiropéptico (106) em que predomina o esqueleto mineral e não o plasma. Grãos minerais, quase exclusivamente de quartzo, das fracções limo, areia fina e areia grossa, e ainda concreções ferruginosas estão fortemente ligados uns aos outros por um plasma intersticial castanho com algumas pequenas manchas avermelhadas, amareladas ou negras. O arranjo lembra a "braced structure" de Jongerius (102).
O plasma mostra-se amarelado à luz reflectida. Deve ser constituído por óxidos de ferro e minerais da argila mais ou menos fortemente associados. Nele existem bastantes precipitações de Iwatoka (107).
Alguns grãos de quartzo, sobretudo os maiores da fracção areia grossa, têm a sua superfície crivada de minúsculas concavidades, o que parece indicar ataque por solução (37).
A matéria orgânica está dispersa pelo plasma e não há restos vegetais; há apenas alguns, muito poucos, grumos orgânicos de dimensões diminutas.
Existem numerosas concreções ferruginosas, negras à luz transmitida e vermelhas ou cor de laranja à luz reflectida, esféricas, ovóides ou oblongas, com dimensões que vão de poucos décimos de milímetro até mais de 1 cm, com ou sem grãos de quartzo das fracções limo e areia fina inclusos.
A porosidade entre os agregados é grande mas no seu interior é praticamente nula. Nas faces de algumas unidades estruturais observam-se películas de argila que se espessam até alguns décimos de milímetro em conscrições de canais, demonstrando que a migração descendente dos colóides é um facto. Estas películas mostram-se avermelhadas por óxidos de ferro, os quais não chegam, todavia, a impedir a observação de birrefringência.
Horizonte B (Corte nº 13). - O aspecto micromorfológico deste corte apresenta grandes semelhanças com o anterior. As principais diferenças consistem em ser evidente uma maior percentagem de minerais da argila e uma abundância enorme de películas de argila nas paredes dos canais e fendas do solo e até à superfície das maiores concreções. Essas películas chegam a atingir mais de 0,5 mm de espessura (Figura 19).
Nas concreções ferruginosas, muito abundantes, há, por vezes, acumulações esféricas mais intensas de óxidos de ferro, parecendo que possuem outras concreções interiores. Há nelas também, nalguns casos, segregações lineares de ferro e grãos de quartzo da fracção areia grossa.
Couraça ferruginosa do horizonte BC1 cn (Corte nº 61) - Neste corte observa-se que grandes grãos de quartzo e grandes concreções ferruginosas, ambos por vezes com mais de 2 mm de diâmetro, se encontram fortemente cimentados por um plasma denso constituído por minerais da argila e óxidos de ferro em que estão imersas inúmeras partículas de quartzo das fracções limo e areia fina (Figura 20).
Os maiores grãos de quartzo apresentam a superfície crivada de minúsculas cavidades resultantes de ataque por solução (37), algumas das quais estão, preenchidas com óxidos de ferro. Outros têm estrutura aglomerática (ou em agregados) e julga-se, por isso, serem de quartzo secundário, o qual é comum nos solos em que o processo de laterização (não apenas o de rubefacção) actuou em circunstâncias em que a sílica foi impedida de migrar profundamente e acabou por preencher algumas cavidades (108).
As concreções ferruginosas são muito abundantes e mostram sempre grãos de quartzo das fracções areia e limo inclusos, muitos dos quais aparentam ter sido atacados por solução.
O plasma é castanho-avermelhado (nalguns pontos amarelado) ou negro, dependendo da quantidade e qualidade dos óxidos de ferro presentes. É constituído por minerais da argila e óxidos de ferro e tem cor vermelha ou amarelada à luz reflectida. Os primeiros mostram birrefringência e os segundos são isotrópicos. Nele se observam segregações mais ou menos lineares de ferro e algumas estruturas birrefringentes que se assemelham a películas de argila que obturaram antigos poros.
Há alguns canais ou fendas cujas paredes estão quase sempre revestidas de relativamente espessas películas de argila mais eu menos impregnadas de óxidos de ferro que lhes imprimem cor avermelhada mas que lhes não eliminam completamente a birrefringência.
Horizonte C2 (argila "tachetée") (Corte nº 14) - Alguns grandes grãos de quartzo secundário (com estrutura aglomerática ou em agregados) e primário (com cavidades de ataque por solução) estão rodeados por um plasma argiloso, com relativamente pequena quantidade de partículas de limo e areia fina quartzosas nele inclusas e com alguns pequenos vacúolos. Parece, pois, tratar-se de um "fabric" plectoamíctico com tendência para porfiropéptico (106).
O plasma tem cor cinzento-amarelada e apresenta manchas dispersas castanho-avermelhadas. À luz reflectida a parte acinzentada mostra a mesma coloração enquanto a segunda passa a vermelho vivo. Esta última, isotrópica ou quase, é dominada por óxidos de ferro, enquanto a outra é constituída por minerais da argila birrefringentes. O ferro que inicialmente existiria na parte acinzentada deve ter migrado total ou parcialmente para as zonas de concentração de cor avermelhada.
No seio do plasma há muitas estruturas coloidais birrefringentes impregnadas ou não de óxidos de ferro, correspondendo talvez a antigos poros ou fendas agora obturados.
Nas faces dos agregados e de alguns grãos minerais há películas de argila, por vezes de espessura apreciável.
Considerações sobre a génese
Como já se referiu, grande parte dos autores associam aos Solos Vermelhos Mediterrâneos exclusivamente a chamada "Terra Rossa" ou os solos dela derivados. Não foi esse o critério adoptado neste trabalho. Todos os Solos Argiluviados Pouco Insaturados com cores avermelhadas ou amareladas nos horizontes A ou B ou em ambos, desenvolvidos em climas com características mediterrâneas, foram incluídos na Subordem dos Solos Mediterrâneos Vermelhos ou Amarelos, quer fossem ou não derivados de materiais calcários, tendo este facto sido tomado em consideração a um nível taxonómico inferior, isto é, abaixo do Grupo.
Duchaufour (63), Durand (68) e Bramão et al. (31) já tinham alargado ou admitido o alargamento da designação de Solos Mediterrâneos a solos derivados de rochas não calcarias. A orientação seguida presentemente pelo Grupo de Trabalho Europeu de Cartografia e Classificação de Solos tem também o mesmo sentido (73).
Tal como, se referiu para solos semelhantes derivados de materiais calcários, é possível que uma pedogénese antiga em que predominou a ferralitização (ou laterização) e/ou a rubefacção (ou ferruginação) se tenha dado numa época de clima diferente do de agora, a que se seguiu uma outra, a actual, actuando sobre os solos iniciais que serviram para tal de material originário.
É ponto assente que o clima de Portugal teve características muito diferentes nos períodos glaciares e nos interglaciares, como de resto sucedeu no resto da Europa, na América e na Ásia.
Zbyszewski (203) refere que nos tempos glaciares o ar frio do centro e do norte da Europa, então, ocupados pelos glaciares, desceu até à Península Ibérica e a outros países mediterrâneos. Portugal encontrava-se nessa altura numa zona húmida e nevava abundantemente no Inverno. O clima Wurmiano da Serra da Estrela, onde então se deu uma glaciação, devia ser comparável ao do norte da Escócia, e o do litoral setentrional do país ao actual da cidade da Guarda. Em comparação com as temperaturas médias mensais do tempo presente em todo o país, as diferenças entre as temperaturas mensais de Verão do Wurmiano deviam ser muito maiores do que entre as de Inverno. Durante o Inverno a temperatura era mais elevada dela que a da Alemanha, setentrional, mas no Verão era muito mais baixa. As precipitações anuais eram muito maiores do que actualmente, mas distribuídas duma maneira mais uniforme por todo o ano. Durante o Verão os ciclones extratropicais traziam chuvas intensas. A evaporação era menor. No, norte do país as zonas acima de 850 metros de altitude estavam desprovidas de florestas, limite esse que no sul subia para 1100 metros. A cotas inferiores dominava a floresta em que se encontravam com, certa frequência, "Pynus silvestris", "Fagus sylvatica", "Quercus robur", "Taxus baccata", "Ilex aquifolium", "Betula verrucosa", "Acer montana", "Crataegus monogyna", "Sorvus aucuparia", "Ccmus sanguinea", "Corylus avelana", "Pinus sp. ", "Malus sp. ", etc. Todavia algumas espécies subtropicais de folhas persistentes, conhecidas depois do Pliocénico, puderam sobreviver até aos nossos dias nalguns locais protegidos do sul do país. Na cordilheira central e nos planaltos do norte havia zonas cobertas apenas de arbustos e plantas herbáceas.
Ao contrário, nos tempos inter glaciares o clima de Portugal devia ser semelhante aos das regiões mediterrâneas ou ao da África do Norte, portanto um pouco mais quente do que o actual. O país devia estar coberto de florestas até aos planaltos elevados da Serra da Estrela, em que se encontrariam pinheiros mansos, azinheiras, zambujeiros, castanheiros, nogueiras, árvores de fruto e videiras. Nas regiões mais baixas predominavam as florestas de espécies de folhas persistentes e rijas do tipo mediterrâneo. A flora mediterrânea, com o "Rhododendron", devia estender-se até muito mais ao, norte, enquanto as espécies próprias das floras da Europa Ocidental e Central se deviam ter retirado para o norte do país ou para as montanhas do Sul, onde ainda hoje se encontram. A vegetação interglaciar era muito próxima da actual, sendo frequentemente difícil saber se uma flora é daqueles períodos ou de agora. Entre as espécies mais notáveis dos tempos interglaciares citam-se "Chamaerops humilis" e "Adiantum reniforme". Na fauna, além das espécies actuais havia rinocerontes, elefantes, hipopótamos, hienas e "Felis pardus". A presença de tufos calcários nos vales das ribeiras, dando lugar a cascatas, pequenas falésias, etc. é indicação, na opinião de Zbyszewski, dum clima subtropical marítimo do tipo mediterrâneo. Durante as épocas interglaciares o mar deve ter penetrado bastante no interior dos estuários dos principais rios e nas planuras do litoral (203).
Não parece, portanto, haver muitas dúvidas sobre a existência, nos períodos interglaciares, de condições favoráveis à rubefacção e mesmo até à ferralitização, que se realizaram em materiais de toda a natureza, quer calcários quer não calcários, segundo processos já atrás descritos.
Nesses períodos se devem ter formado as couraças ferruginosas que são frequentes em solos derivados de "rañas" e as argilas "tachetées" que se observam nestes e noutros Solos Mediterrâneos Vermelhos e Amarelos.
As couraças resultam duma acumulação de sesquióxidos livres, acumulação que pode ser absoluta, por chegada de tais compostos provenientes doutros horizontes do mesmo perfil ou doutros perfis, ou relativa, por migração de outros elementos, tais como bases, sílica, etc. (55).
Os sesquióxidos, especialmente os de ferro, desidratam-se e cristalizam depois e, por fim, endurecem.
Segundo Duchaufour (63) há três tipos de formação de couraças: de erosão, hidromórficas ou de toalha de água e de acumulação relativa.
As couraças de erosão são consequência da degradação de solos florestais por erosão dos horizontes superficiais provocado pela destruição da floresta pelo homem. O horizonte B desses solos, enriquecido em sesquióxidos de ferro por migração descendente e ascendente e por vezes oblíqua, acaba por aflorar à superfície e endurecer. São estas as couraças das savanas secundárias que ocupam vastas regiões em África.
As couraças de toalha de água ou hidromórficas são mais localizadas do que as anteriores e resultam de migração e concentração em certos horizontes dos óxidos de ferro existentes no estado ferroso numa toalha de água. Formam-se em zonas planas ou depressões em que a toalha freática é pouco profunda, migrando o ferro de baixo para cima, ou em locais de encostas em que o declive muda e aflora uma toalha de água. Em ambos os casos o ferro precipita, por oxidação, no estado férrico e predomina bastante sobre a alumina.
As couraças de acumulação relativa, as mais raras, resultam do desaparecimento quase completo da sílica e dos catiões cálcio, magnésio e potássio do solo com consequente concentração dos sesquióxidos de ferro e sobretudo de alumínio. Estas couraças exigem condições especiais para se formar, nomeadamente clima húmido, rocha-mãe básica, boa drenagem externa e ausência de cobertura florestal. Sob elas, ao contrário das dos tipos anteriores, não se observa a zona "tachetée".
As couraças encontradas em Solos Mediterrâneos Vermelhos e Amarelos derivados de "rañas" são todas do segundo tipo, quer de planura quer de encosta, e cobrem sempre zonas "tachetées". Apresentam talvez excessiva quantidade de quartzo, algum do qual é secundário.
As "rañas", segundo Ribeiro & Feio (162), são formações sedimentares de vários metros de espessura constituídas por quantidades maiores ou menores de fragmentos grosseiros angulosos ou imperfeitamente rolados (quartzitos, quartzo, xistos argilosos e metamórficos, lidites, serpentina, etc.) metidos numa massa argilosa ou argilo-arenosa de cor mais ou menos avermelhada em que se podem reconhecer elementos de xistos ou granitos. Os fragmentos grosseiros apresentam sempre uma grande variação de tamanhos, o que permite distingui-los dos terraços, e frequentem, ente têm uma superfície externa polida e uma "patine" avermelhada ou amarelada escura devida a uma concentração periférica dos óxidos de ferro provocado por desidratação. As "rañas" podem ser de planície ou de base de encosta; estas formaram-se sob um clima relativamente árido com chuvas impetuosas concentradas e violentas de modo a arrastar os materiais das encostas desnudas. Foram as rochas menos resistentes à meteorização (xistos argilosos e granitos) que deram origem aos materiais finos das "rañas". As condições que presidiram à formação destes materiais parecem ter sido idênticas às dos pedimentos áridos e semiáridos do oeste dos Estados Unidos e que predominaram no oeste ibérico, tendo as "rañas" sido depositadas em planuras produzidas por pedimentação à custa do recuo dos flancos das montanhas (162).
As "rañas" parecem enquadrar-se em Portugal no Pliocénico Superior, num período imediatamente anterior às variações climáticas do início do Quaternário e posterior aos últimos movimentos orogénicos (162). Nos períodos interglaciares, especialmente no Tirreniano e no Wurmiano, ter-se-ia então dado a rubefacção ou ferralitização dos solos e formado as couraças que hoje se observam (e até a "patine" dos elementos grosseiros).
Os Solos Mediterrâneos Vermelhos e Amarelos de Materiais Não Calcários apresentam muitas semelhanças com os "Rotlehms" de Kubiena (107), como se viu no estudo micromorfológico. Estes são descritos como solos fósseis existentes no sul da Europa de perfil A (B) C, com um horizonte A delgado e pobre em húmus; a espessura do horizonte (B) é pequena em comparação com a que é frequente nas regiões tropicais, onde tais solos são formações actuais. A sua textura é pesada, de grande coerência, compacidade e elasticidade. A massa fundamental dos "Rotlehms" é rica em ácido silícico coloidal que protege o hidróxido de ferro; este apenas em parte se apresenta irreversivelmente segregado em concreções, depósitos e manchas vermelhas. Nestes solos a desintegração química é forte e há pobreza de bases e de substâncias nutritivas. Quando há enriquecimento em carbonatos estes são de natureza secundária. Uma lavagem acentuada de sílica e uma separação geliforme do ferro podem dar lugar a uma forma de "Rotlehm", denominada "terrosa", de maior permeabilidade, menos pesada, de menor capilaridade e mais facilmente cultivável.
Nem todas as características dos solos portugueses deste Grupo permitirão a sua inclusão pura e simples nos "Rotlehms", mas não há dúvida de que mostram forte tendência para isso.
Frequentemente observam-se perfis de Solos Mediterrâneos Vermelhos e Amarelos de Materiais Não Calcários em que o horizonte A é, no todo ou em parte, constituído por um sedimento mais ou menos arenoso diferente do material originário da parte subjacente do solo. A presença de linhas de pedra confirma imediatamente a descontinuidade litológica. Todavia todo o conjunto está sob a alçada da pedogénese actual, orientada na formação do mesmo tipo de solo derivado de um único material originário.
Tomando em consideração a recente definição de Solos Ferruginosos (ou Fersialíticos) Tropicais (57), é indubitável que muitos dos solos portugueses estudados neste capítulo caiem dentro daquele agrupamento. E os que, por qualquer característica, tenham de ser dele excluídos não deixam por isso de se situar numa posição de "intergrade" para esses solos. A não ser que a circunstância de se desenvolverem em climas não tropicais os tenha forçosamente que separar a um nível taxonómico superior.
Copyright © Secção de Agricultura. Todos os direitos reservadosOptimizado para 800 x 600 e IE 4.0http://agricultura.isa.utl.pt/agribase_temp/solos/smvamnc.htm

Sem comentários: