Solos Mediterrâneos Vermelhos e Amarelos de Materiais Não Calcários

Solos Mediterrâneos Vermelhos e Amarelos de Materiais Não Calcários
Descrição-geral das Famílias
Os Solos Mediterrâneos Vermelhos e Amarelos de Materiais Não Calcários subdividem-se nas seguintes 8 Famílias:
- de gneisses ou rochas afins (Vgn)- de rochas cristalofílicas básicas (Pv)- de xistos (Vx)- de material coluviado de solos derivados de xistos (Pvx)- de arenitos (Vtc)- de "rañas" ou depósitos afins (Sr)- de "rañas" ou depósitos afins, com materiais lateríticos (Sr*)- de dioritos ou quartzodioritos ou rochas microfaneríticas afins (Vm) .
As duas últimas pertencem a Subgrupos diferentes dos das 6 anteriores.
As descrições gerais destas Famílias são apresentadas nas páginas seguintes.
Solos Mediterrâneos Vermelhos ou Amarelos de gneisses (Vgn)
Horizonte A1 -20 a 30 cm; pardo-avermelhado; franco-arenoso ou franco; estrutura granulosa fina fraca; friável; pH 5,0 a 6,0. Transição gradual para
Horizonte B - 15 a 40 cm; pardo-avermelhado ou vermelho-amarelado; franco ou franco-argiloso; estrutura granulosa média moderada a fraca; friável a firme; pH 5,0 a 6,0. Transição gradual para
Horizonte C - Material originário: material grosseiro proveniente da desagregação de gneisses ou de rochas afins.
Solos Mediterrâneos Vermelhos ou Amarelos de rochas cristalofílicas básicas (Pv)
Horizonte A1 - 15 a 30 cm; pardo-avermelhado, castanho-avermelhado ou vermelho; franco-argiloso ou, por vezes, franco; estrutura granulosa fina a média moderada a forte; friável; pH 5,5 a 7,0. Transição nítida para
Horizonte B - 10 a 40 cm; vermelho, vermelho-escuro ou castanho-avermelhado; argiloso; estrutura subangulosa fina ou média moderada a forte; há algumas películas de argila nas face;, dos agregados; firme; pH 5,5 a 7,0. Transição gradual para
Horizonte C - Material originário: mistura de material semelhante ao do horizonte anterior com fragmentos de rocha, fazendo transição para a rocha-mãe (rochas cristalofílicas básicas).
Solos Mediterrâneos Vermelhos ou Amarelos de xistos (Vx)
Horizonte A1 - 15 a 25 cm; pardo-avermelhado ou vermelho; franco ou franco-argiloso; estrutura granulosa fina fraca a moderada; fiiável; pH 5,0 a 6,0. Transição gradual para
Horizonte B - 20 a 50 cm; vermelho-escuro, pardo-avermelhado ou vermelho-amarelado; argiloso; estrutura granulosa média moderada ou anisoforme subangulosa fina moderada; vêem-se algumas películas de argila nas faces dos agregados; firme; pH 5,0 a 6,0. Transição gradual ou difusa para
Horizonte C - Material originário: mistura de material semelhante ao do horizonte anterior com fragmentos de rocha, fazendo transição para a rocha-mãe (xistos argilosos ou xistos cristalofílicos não básicos).
Por vezes aparecem, subjacentemente ao horizonte C, camadas que muito se assemelham à "argile tachetée" dos franceses.
Solos Mediterrâneos Vermelhos ou Amarelos de material coluviado de solos derivados de xistos (Pvx)
Horizonte A1 -20 a 30 cm; pardo-avermelhado ou pardo-amarelado; franco com bastantes elementos grosseiros rolados ou subangulosos (quartzitos e xistos); estrutura granulosa fina fraca a moderada; friável a firme; pH 5,0 a 6,0. Transição gradual para
Horizonte BC -Espessura variável, em geral superior a um metro; semelhante ao anterior, mas de cor mais avermelhada ou mais amarelada, de consistência firme e com maior percentagem de argila; notam-se algumas películas de argila nas faces dos agregados.
Solos Mediterrâneos Vermelhos ou Amarelos de arenitos (Vtc)
Horizonte A1 - 20 a 30 cm; pardo ou pardo-amarelado, por vezes com alguns fragmentos rolados de quartzitos (cascalho ou pedras miúdas); franco-arenoso a franco-argilo-arenoso; estrutura granulosa média fraca; friável; pH 7,0 a 8,0. Transição, o gradual para
Horizonte B - 15 a 60 cm; amarelo, amarelo-avermelhado, pardo-avermelhado ou vermelho, por vezes pardo com muitas manchas pequenas muito distintas amareladas ou avermelhadas; argiloso; estrutura prismática média moderada composta de prismática fina e muito fina moderada a forte; notam-se algumas películas de argila nas faces dos agregados; firme e rijo; pH 7,0 a 8,0. Transição gradual para
Horizonte C - Material originário proveniente de arenito de grão fino.
Estes solos erosionam com facilidade, sendo vulgar o adelgaçamento da 1. a camada; nesse caso os amanhos culturais misturam os horizontes A e B e a camada superficial mostra-se então amarelada ou avermelhada mais rica em argila e entorroada, diminuindo a erodibilidade.
Solos Mediterrâneos Vermelhos ou Amarelados de "rañas" ou depósitos afins (Sr)
Horizonte A1 - 15 a 25 cm; castanho-avermelhado ou pardo-avermelhado; franco-arenoso a franco-argilo-arenoso, normalmente com alguns ou bastantes elementos grosseiros subangulosos (quartzo e quartzitos); estrutura granulosa fina moderada ou fraca; friável; por vezes com pequenas concreções ferruginosas; pH 5,0 a 6,0. Transição gradual para
Horizonte B - 20 a 50 cm; vermelho-escuro ou castanho-avermelhado ou pardo-amarelado; franco a argiloso, com maior percentagem de argila do que o horizonte A; normalmente com bastantes elementos grosseiros; estrutura anisoforme subangulosa fina moderada a fraca; existem películas de argila nas faces dos agregados; friável a firme; por vezes com pequenas concreções ferruginosas; pH 5,5 a 7,0.
Horizonte C - Material detrítico, em geral pouco consolidado, do tipo "raña".
Solos Mediterrâneos Vermelhos ou Amarelos de "rañas" ou depósitos afins, com materiais lateríticos (Sr*)
Estes solos apresentam um perfil muito semelhante aos da Família anterior (Sr), deles diferindo por apresentarem no horizonte C ou subjacentemente couraças ferruginosas e por baixo destas uma camada argilosa vermelha com muitas manchas pequenas e médias cinzentas claras (plintite não endurecida ou argila "tachetée"). Em todos os horizontes existem normalmente concreções ferruginosas de tamanho variável.
Solos Mediterrâneos Vermelhos ou Amarelos de dioritos ou quartzodioritos ou rochas microfaneríticas ou cristalofílicas afins (Vm)
Horizonte A1 -15 a 30 cm; pardo-avermelhado; franco ou franco-argilo-arenoso, quase sempre com algum saibro da rocha-mãe; estrutura granulosa média e fina moderada; aderente, plástico, friável, pouco rijo; pH 6,0 a 6,5. Transição nítida para
Horizonte B - 15 a 50 cm; vermelho ou pardo-avermelhado; franco-argiloso ou argiloso, apresentando películas de argila nas faces dos agregados; estrutura prismática grosseira forte ou moderada composta de angulosa grosseira moderada ou forte; por vezes com superfícies polidas ("slickensides"); plástico a muito plástico, firme; pH 6,5 a 7,0. Transição gradual ou nítida para
Horizonte C - Material originário proveniente da desagregação de dioritos ou quartzodioritos ou rochas microfaneríticas ou cristalofílicas afins.
Os Solos Mediterrâneos Vermelhos e Amarelos de Materiais Não Calcários desenvolvem-se em relevo normal, por vezes subnormal.
Os solos da Família Vgn são frequentes na região de Arraiolos. Os da Família Pv encontram-se nas áreas de Alter do Chão, Elvas, Montemor-o-Novo e Beja. Os da Família Vx abundam sobretudo na Serra de Ossa, na zona Beja-Mértola e na Serra de Espinhaço de Cão. Os da Família Pvx foram mais cartografados na base das encostas da Serra de S. Mamede. Os da Família Vtc existem principalmente no Sotavento do Algarve. Os das Famílias Sr e Sr* apresentam-se em manchas relativamente grandes na região de Odemira, na charneca de Garvão, na área da Tanganheira (Sines) e nas proximidades de Ferreira do Alentejo. E os da Família Vm são frequentes na região de Beja.
Na Figura 15 pode ver-se o perfil de um Solo Mediterrâneo Vermelho ou Amarelo de xistos (Vx-P. 459) fotografado próximo da Barragem da Bravura (Odeáxere, Algarve) e na Figura 16 o de um Solo Mediterrâneo Vermelho ou Amarelo de "rañas" ou depósitos afins, com materiais lateríticos (Sr*) situado nas proximidades de Tanganheira (Cercal do Alentejo).
Dados analíticos físicos e químicos
Dados analíticos relativos a 6 Perfis de 4 das Famílias atrás descritas são apresentados no Quadro 41. Um perfil pertence à segunda Família (Pv), dois à terceira (Vx) (*), um à quinta (Vtc) e dois à sétima (Sr*). Não é possível, de momento, apresentar elementos sobre perfis da primeira Família (Vgn), da quarta (Pvx), da sexta (Sr) e da sétima (Vm).
A textura das camadas superficiais destes solos é geralmente ligeira ou mediana. No horizonte B a percentagem de argila aumenta muito, dando à curva de distribuição do material coloidal a forma característica dos Solos Argiluviados. O teor orgânico é baixo, por vezes mediano em solos não sujeitos à cultura agrícola; decresce, porém, rapidamente com a profundidade. A relação C/N é baixa a atestar uma rápida decomposição dos restos vegetais ou animais. Nota-se, todavia, que a tendência, sobretudo em solos não intensivamente cultivados, é para os valores característicos do "mull" florestal (63). A quantidade de ferro livre é mediana ou elevada; a sua distribuição é nitidamente reveladora de forte migração para os horizontes inferiores em que, por vezes, a percentagem deste elemento é superior ao dobro da das camadas superficiais.
A capacidade de troca catiónica é, na maioria dos casos, baixa ou mesmo muito baixa. O ião cálcio predomina sobre os restantes. Nuns solos o magnésio tem valores muito reduzidos e noutros medianos ou até altos. O potássio de troca é, em regra, baixo enquanto o sódio, comparativamente, apresenta valores elevados. O grau de saturação, de especial significado taxonómico nestes solos, é alto ou muito alto, sempre superior a 50 %. O pH nunca é inferior a 5,0 e indica que a reacção vai de moderadamente ácida a neutra.
Há, infelizmente e por agora, relativamente poucos elementos de natureza física. Em todo o caso pode dizer-se que a expansibilidade parece ser baixa (excepto no perfil de Pv onde existe pequena percentagem de montmorilonóides e certamente nos solos Vm), a estabilidade da microestrutura elevada ou muito elevada, a capacidade de campo mediana ou alta e a capacidade utilizável dos primeiros 50 cm mediana. A porosidade da terra fina tem valores moderados e a permeabilidade é lenta ou moderada, às vezes com tendência para rápida; em condições naturais deverá, porém, ser sempre lenta nos horizontes de acumulação de argila.
Mineralogia da areia fina
Os resultados da análise mineralógica de todos os perfis de que se apresentaram dados analíticos físicos e químicos encontram-se no Quadro 42.
A reserva mineral destes solos, embora frequentemente pequena, é, por vezes, apreciável e constituída por feldspatos que se não diferenciaram. Na fracção pesada, cuja percentagem é quase sempre baixa, há apenas praticamente minerais muito estáveis. No perfil de Pv abunda o epídoto; tal facto é devidos à composição da rocha-mãe que é um xisto metamórfico epidótico. Nos restantes perfis estudados há um grande predomínio dos minerais opacos.
As diferenças qualitativas e quantitativas dos minerais pesados nos vários horizontes de cada solo não indicam diferenças no material originário; exceptua-se o caso do perfil nº 299 da Família Sr* em que parece haver uma descontinuidade litológica do horizonte B2 para o Cl. É, portanto, viável que a couraça ferruginosa do horizonte C2cn se tenha formado em material originário diferente do que deu origem aos horizontes suprajacentes que se teriam depositado mais tarde. Todavia há que acentuar que nem sempre assim deveria ter sucedido, como o prova a "suite" mineralógica do perfil nº 4 da mesma Família.

QUADRO 42
ANÁLISE MINERALÓGICA DA AREIA FINA DE SOLOS CALCÁRIOS MEDITERRÂNEOS VERMELHOS E AMARELOS DE MATERIAIS NÃO CALCÁRIOS
Unidade e perfil
Amostra número
Horizonte
Peso da areia (g)
Fracção leve
Mineralogia da fracção leve
Fracção pesada
Mineralogia da fracção pesada (%)

Mineralogia da argila
A análise química dos colóides minerais do horizonte B de quase todos os perfis atrás estudados e ainda do horizonte C, do perfil nº 299 (Sr*) é apresentada no Quadro 43. A análise térmica diferencial de quase todos esses materiais e ainda dos colóides minerais do horizonte B dos perfis n. os 251 (Vx) e 259 (Vtc) encontrasse no Gráfico 10. Os valores extraídos dos radiogramas de três daqueles materiais pode ver-se no Quadro 44.
Todas as técnicas utilizadas na identificação dos minerais da argila destes solos indicam a presença de caulinite e ilite, dominando umas vezes uma outras vezes outra, acompanhadas ou não de óxidos de ferro. Nos solos Vm, do Subgrupo Para-Barros, de que se não apresentam dados analíticos, é de presumir a existência de uma certa percentagem de montmorilonóides.
No solo Pv a análise química demonstra o, carácter sialítico da fracção argilosa e a existência de minerais do grupo 2:1. A capacidade de troca catiónica, estimada pelo processo já anteriormente referido, é de cerca de 40 m.e./100g, sugerindo ser a ilite o mineral predominante. A análise térmica diferencial mostra que há ilite, possivelmente alguma caulinite de baixo grau de cristalinidade (P = 15, E = 5,2) (113) e vestígios de montmorilonóides, o que é confirmado pelo estudo por raios X de materiais doutros solos com comportamento térmico semelhante.
Dois perfis de Vtc foram investigados. Apenas de um deles se fez a análise química. Esta sugeriu a existência de minerais 2:1 (92) e indicou um nítido carácter sialítico dos materiais. A análise térmica diferencial dos colóides desses perfis revela que há sobretudo ilite associada a alguma caulinite mal cristalizada e, num deles, "goethite". O radiograma da argila do perfil nº 259 apresenta riscas características desses três minerais, não se podendo porém afirmar se há, predomínio da ilite ou da caulinite.
Os perfis de Vx estudados possuem ilite possivelmente associada a "goethite". Assim o provaram a análise química, a capacidade de troca catiónica estimada, a análise térmica diferencial e a difracção por raios X (esta apenas de um deles). As relações Si O3/R2 O3 e Si O3 /Al2 O3 indicam um carácter fersialítico ou ligeiramente ferralítico.
Os materiais argilosos de Sr* são constituídos por caulinite (às vezes haloisite), "goethite" e/ou hematite e, possivelmente, ilite. A análise química demonstra que eles são fersialíticos ou sialíticos mas sugere, atendendo às percentagens de sílica e dos vários sesquióxidos, que há possivelmente caulinite acompanhada de óxidos de ferro (92). A capacidade de troca estimada é relativamente baixa, inferior a 20 m.e./100g. A análise térmica diferencial, por meios dos índices P e E (113) e S (205), indica que estão presentes a ilite e a caulinite e, num dos perfis, talvez a haloisite (S = 2,8). A difracção por raios X dos colóides do perfil nº 299 revelou a presença de riscas típicas da caulinite e da hematite e de algumas da ilite, faltando, porém, desta a de 10 Å.

GRAFICO 10
ANÁLISE TÉRMICA DIFERENCIAL DOS COLÓIDES MINERAIS DE SOLOS MEDITERRÂNEOS VERMELHOS E AMARELOS DE MATERIAIS NÃO CALCÁRIOS

Micromorfologia
Fizeram-se cortes delgados dos horizontes Ap e B do perfil nº 220 (Pv), dos Ap e B do perfil nº 389 (Vtc), dos A1 e B2 do perfil nº 459 (Vx) e ainda dos Ap, B, B C1 cn (couraça ferruginosa) e C2 (argila "tachetée") do perfil nº 4 (Sr*), cujo estudo micromorfológico se apresenta a seguir.
Pv -Perfil 220
Horizonte Ap (Ccrte nº 24) - O "fabric" é porfirítico do tipo porfiropéptico, nalguns pontos em transição para plectoamíctico (106).
Os grãos minerais, de areia fina mas sobretudo de limo, estão imersos num plasma denso de cor castanho-avermelhada tingido porém, na sua maior parte mas de forma parcial, de negro. O plasma é constituído por minerais da argila e óxidos de ferro. Estes estão disperses sobre aqueles ou existem concentrados em manchas negras, à luz transmitida, e vermelhas, à luz reflectida, ou em precipitações de Iwatoka (107) que são numerosas.
A porosidade é relativamente pequena e apresenta-se principalmente sob a forma de fendas estreitas, quase sempre de traçado caprichoso, algumas das quais parecem resultantes de fenómenos de contracção.
São raras as concreções ferruginosas e todas de diâmetro inferior a 0,5 mm.
Há algumas massas coloidais birrefringentes no interior dos agregados e películas de argila pouco espessas e descontínuas nas paredes das fendas ou rodeando grãos minerais.
Horizonte B (Corte nº 25) - O aspecto assemelha-se muito ao do corte anterior. Os óxidos de ferro parecem estar, porém, mais disseminados pelo plasma, dando-lhe um aspecto mais anegrado à luz transmitida. Todavia o plasma, no geral, não é isotrópico.
A grande diferença está em que são aqui abundantes, espessas e contínuas as películas de argila nas faces dos agregados, os quais se mostram anisoformes. A argiluviação é, pois, evidente até porque se observam espessamentos das películas em conscrições dos espaços intergranulares (Figura 17).
As concreções ferruginosas são, raras, mas algumas parecem envelhecidas.
Em muitas facetas a micromorfologia deste solo assemelha-se à dos "Rotlehms" de Kubiena (107) e à dos Solos Vermelhos sobre rochas eruptivas de Chipre descritos por Osmond & Stephen (146).
Vtc -Perfil 389
Horizonte Ap (Corte nº 9) - O "fabric" é porfirítico do tipo porfiropéptico (106). Acontece, porém, que o esqueleto mineral representa uma percentagem muitíssimo maior do que a do plasma, talvez na razão de 4 para 1 ou mesmo superior, tomando a microestrutura semelhante à "braced structure" de Jongerius (102).
Os grãos minerais, principalmente das fracções areia grossa e fina, estão completamente rodeados e ligados entre si por um plasma castanho-avermelhado ou negro, à luz transmitida, e alaranjado ou amarelado, à luz reflectida, o qual é constituído por minerais da argila e óxidos de ferro em que se dissemina alguma matéria orgânica totalmente humificada. Inclusas nele há, grãos de limo.
A porosidade é muito pequena.
Observam-se raras películas de argila, muito pouco espessas e descontínuas, nas faces de alguns agregados.
Horizonte B (Corte nº 10) - Neste corte, apesar de predominar ainda o esqueleto mineral, o plasma é muito abundante. O "fabric" é, na mesma, porfiropéptico (106).
Os grãos minerais, agora um pouco menos abundantes, são principalmente das fracções areia grossa e fina.
O plasma é avermelhado ou amarelado mas essencialmente birrefringente. Dominam nele os minerais da argila, sendo os óxidos de ferro menos abundantes. Imersos no plasma argiloso há inúmeras partículas de limo.
São muito frequentes as películas de argila nas faces dos agregados e nas paredes de alguns poros. Elas são espessas e contínuas, sem dúvida do tipo "illuviation cutans" (34). No interior dos agregados observam-se também estruturas coloidais birrefringentes que são ou "stress cutans" (34) ou autênticas películas de argila que obturaram antigos poros. À volta de grãos minerais, sobretudo dos de maiores dimensões, há também formações de argila fortemente orientada.
Vêem-se raras concreções ferruginosas, algumas das quais aparentam um certo envelhecimento. Nalguns pontos do plasma há precipitações de Iwatoka (107).
Vx -Perfil 4-59
Horizonte A1 (Corte nº 17) - O "fabric" é porfirítico do tipo porfiropéptico (106). Os grãos minerais, das fracções areia fina e limo e alguns da areia grossa, estão imersos num plasma denso, com raros vacúolos, mas com algumas fendas muito finas provocados por secagem.
O plasma é castanho-avermelhado mais ou menos escuro com algumas manchas quase negras. Na sua maior parte é birrefringente e constituído por minerais da argila associados a óxidos de ferro que lhe imprimem a cor avermelhada, os quais dominam as zonas negras isotrópicas ou quase. Estas têm cor vermelha viva à luz reflectida, ao passo que a restante parte do plasma se mostra de cor alaranjada. Neste abundam precipitações de Iwatcka (107) e partículas de limo.
A matéria orgânica está finamente distribuída pelo plasma, não se encontrando quaisquer restos vegetais; há, porém, alguns, embora raros, grumos orgânicos de dimensões nunca excedendo 0,2 mm, talvez dejecções da fauna do solo.
Existem numerosas concreções ferruginosas negras (à luz reflectida têm cor vermelha viva) com partículas de limo e argila inclusas. O seu tamanho vai de poucas décimas de milímetro até mais de 3 mm. Muitas são esféricas ou ovóides, algumas são oblongas; uma destas apresentava quase 1 cm de comprimento. Frequentemente aparentam sintomas de envelhecimento, isto é, estão em vias de destruição.
Nas paredes das fendas ou canais entre os agregados e principalmente à volta dos maiores grãos minerais e das concreções ferruginosas existem algumas películas de argila, por vezes de espessura apreciável, superior até a 0,1 mm. No seio dos agregados há também algumas acumulações orientadas de argila.
A porosidade não é muito baixa mas para ela contribuem apenas as fendas muito finas de secagem e, sobretudo, os espaços entre os agregados de uma estrutura granulosa.
Horizonte B2 (Corte nº 18) - O "fabric" deste corte, de que se apresenta uma fotografia na Figura 18, é porfirítico do tipo porfiropéptico (106). Os grãos minerais, quase exclusivamente das fracções limo e areia fina, estão imersos numa massa muito densa de plasma. Este é castanho-avermelhado com manchas escuras quase negras. A luz reflectida a parte avermelhada mostra-se alaranjada e a negra de cor vermelha viva. A primeira é constituída por argila com alguns óxidos de ferro e a segunda principalmente por óxidos de ferro, possivelmente hematite.
O plasma está recortado por numerosíssimas fendas provocados por contracção durante a secagem, representando estas toda a porosidade do corte que, por conseguinte, é bastante pequena. Nele se observam precipitações de Iwatoka (107).
Há um número apreciável de concreções ferruginosas negras, quase sempre com algumas partículas minerais (limo e argila) inclusas, de formas esféricas, ovóide ou oblonga. As suas dimensões são em geral inferiores a 1 mm, mas nas oblongas chega-se a 4 mm de comprimento. Algumas parecem envelhecidos, mas outras aparentam juventude, estando em plena formação.
À volta das concreções ferruginosas e dos maiores grãos minerais e ainda ao longo das fendas há muito frequentes películas de argila contínuas e espessas que chegam a atingir 0,5 mm. No interior dos agregados limitados pelas fendas de secagem há muitas estruturas birrefringentes de colóides minerais orientados. Pela maior concentração dos óxidos de ferro na parte central dos agregados há como que uma tendência para um concrecionamento geral do horizonte.
As principais características que distinguem, portanto, este horizonte do anterior são menor porosidade, maior densidade do plasma e muitíssimo maior quantidade de películas de argila e de estruturas coloidais interiores birrefringentes e orientadas.
A descrição micromorfológica deste solo corresponde grandemente às de "Rotlehm" feitas por Kubiena (107) ou por Osmond e Stephen (146). Ela parece também indicar que, além da rubefacção, o processo de laterização actuou em certa altura sobre este material (108).
Sr* - Perfil 4
Horizonte Ap (Corte nº 12) - O "fabric" é porfirítico do tipo porfiropéptico (106) em que predomina o esqueleto mineral e não o plasma. Grãos minerais, quase exclusivamente de quartzo, das fracções limo, areia fina e areia grossa, e ainda concreções ferruginosas estão fortemente ligados uns aos outros por um plasma intersticial castanho com algumas pequenas manchas avermelhadas, amareladas ou negras. O arranjo lembra a "braced structure" de Jongerius (102).
O plasma mostra-se amarelado à luz reflectida. Deve ser constituído por óxidos de ferro e minerais da argila mais ou menos fortemente associados. Nele existem bastantes precipitações de Iwatoka (107).
Alguns grãos de quartzo, sobretudo os maiores da fracção areia grossa, têm a sua superfície crivada de minúsculas concavidades, o que parece indicar ataque por solução (37).
A matéria orgânica está dispersa pelo plasma e não há restos vegetais; há apenas alguns, muito poucos, grumos orgânicos de dimensões diminutas.
Existem numerosas concreções ferruginosas, negras à luz transmitida e vermelhas ou cor de laranja à luz reflectida, esféricas, ovóides ou oblongas, com dimensões que vão de poucos décimos de milímetro até mais de 1 cm, com ou sem grãos de quartzo das fracções limo e areia fina inclusos.
A porosidade entre os agregados é grande mas no seu interior é praticamente nula. Nas faces de algumas unidades estruturais observam-se películas de argila que se espessam até alguns décimos de milímetro em conscrições de canais, demonstrando que a migração descendente dos colóides é um facto. Estas películas mostram-se avermelhadas por óxidos de ferro, os quais não chegam, todavia, a impedir a observação de birrefringência.
Horizonte B (Corte nº 13). - O aspecto micromorfológico deste corte apresenta grandes semelhanças com o anterior. As principais diferenças consistem em ser evidente uma maior percentagem de minerais da argila e uma abundância enorme de películas de argila nas paredes dos canais e fendas do solo e até à superfície das maiores concreções. Essas películas chegam a atingir mais de 0,5 mm de espessura (Figura 19).
Nas concreções ferruginosas, muito abundantes, há, por vezes, acumulações esféricas mais intensas de óxidos de ferro, parecendo que possuem outras concreções interiores. Há nelas também, nalguns casos, segregações lineares de ferro e grãos de quartzo da fracção areia grossa.
Couraça ferruginosa do horizonte BC1 cn (Corte nº 61) - Neste corte observa-se que grandes grãos de quartzo e grandes concreções ferruginosas, ambos por vezes com mais de 2 mm de diâmetro, se encontram fortemente cimentados por um plasma denso constituído por minerais da argila e óxidos de ferro em que estão imersas inúmeras partículas de quartzo das fracções limo e areia fina (Figura 20).
Os maiores grãos de quartzo apresentam a superfície crivada de minúsculas cavidades resultantes de ataque por solução (37), algumas das quais estão, preenchidas com óxidos de ferro. Outros têm estrutura aglomerática (ou em agregados) e julga-se, por isso, serem de quartzo secundário, o qual é comum nos solos em que o processo de laterização (não apenas o de rubefacção) actuou em circunstâncias em que a sílica foi impedida de migrar profundamente e acabou por preencher algumas cavidades (108).
As concreções ferruginosas são muito abundantes e mostram sempre grãos de quartzo das fracções areia e limo inclusos, muitos dos quais aparentam ter sido atacados por solução.
O plasma é castanho-avermelhado (nalguns pontos amarelado) ou negro, dependendo da quantidade e qualidade dos óxidos de ferro presentes. É constituído por minerais da argila e óxidos de ferro e tem cor vermelha ou amarelada à luz reflectida. Os primeiros mostram birrefringência e os segundos são isotrópicos. Nele se observam segregações mais ou menos lineares de ferro e algumas estruturas birrefringentes que se assemelham a películas de argila que obturaram antigos poros.
Há alguns canais ou fendas cujas paredes estão quase sempre revestidas de relativamente espessas películas de argila mais eu menos impregnadas de óxidos de ferro que lhes imprimem cor avermelhada mas que lhes não eliminam completamente a birrefringência.
Horizonte C2 (argila "tachetée") (Corte nº 14) - Alguns grandes grãos de quartzo secundário (com estrutura aglomerática ou em agregados) e primário (com cavidades de ataque por solução) estão rodeados por um plasma argiloso, com relativamente pequena quantidade de partículas de limo e areia fina quartzosas nele inclusas e com alguns pequenos vacúolos. Parece, pois, tratar-se de um "fabric" plectoamíctico com tendência para porfiropéptico (106).
O plasma tem cor cinzento-amarelada e apresenta manchas dispersas castanho-avermelhadas. À luz reflectida a parte acinzentada mostra a mesma coloração enquanto a segunda passa a vermelho vivo. Esta última, isotrópica ou quase, é dominada por óxidos de ferro, enquanto a outra é constituída por minerais da argila birrefringentes. O ferro que inicialmente existiria na parte acinzentada deve ter migrado total ou parcialmente para as zonas de concentração de cor avermelhada.
No seio do plasma há muitas estruturas coloidais birrefringentes impregnadas ou não de óxidos de ferro, correspondendo talvez a antigos poros ou fendas agora obturados.
Nas faces dos agregados e de alguns grãos minerais há películas de argila, por vezes de espessura apreciável.
Considerações sobre a génese
Como já se referiu, grande parte dos autores associam aos Solos Vermelhos Mediterrâneos exclusivamente a chamada "Terra Rossa" ou os solos dela derivados. Não foi esse o critério adoptado neste trabalho. Todos os Solos Argiluviados Pouco Insaturados com cores avermelhadas ou amareladas nos horizontes A ou B ou em ambos, desenvolvidos em climas com características mediterrâneas, foram incluídos na Subordem dos Solos Mediterrâneos Vermelhos ou Amarelos, quer fossem ou não derivados de materiais calcários, tendo este facto sido tomado em consideração a um nível taxonómico inferior, isto é, abaixo do Grupo.
Duchaufour (63), Durand (68) e Bramão et al. (31) já tinham alargado ou admitido o alargamento da designação de Solos Mediterrâneos a solos derivados de rochas não calcarias. A orientação seguida presentemente pelo Grupo de Trabalho Europeu de Cartografia e Classificação de Solos tem também o mesmo sentido (73).
Tal como, se referiu para solos semelhantes derivados de materiais calcários, é possível que uma pedogénese antiga em que predominou a ferralitização (ou laterização) e/ou a rubefacção (ou ferruginação) se tenha dado numa época de clima diferente do de agora, a que se seguiu uma outra, a actual, actuando sobre os solos iniciais que serviram para tal de material originário.
É ponto assente que o clima de Portugal teve características muito diferentes nos períodos glaciares e nos interglaciares, como de resto sucedeu no resto da Europa, na América e na Ásia.
Zbyszewski (203) refere que nos tempos glaciares o ar frio do centro e do norte da Europa, então, ocupados pelos glaciares, desceu até à Península Ibérica e a outros países mediterrâneos. Portugal encontrava-se nessa altura numa zona húmida e nevava abundantemente no Inverno. O clima Wurmiano da Serra da Estrela, onde então se deu uma glaciação, devia ser comparável ao do norte da Escócia, e o do litoral setentrional do país ao actual da cidade da Guarda. Em comparação com as temperaturas médias mensais do tempo presente em todo o país, as diferenças entre as temperaturas mensais de Verão do Wurmiano deviam ser muito maiores do que entre as de Inverno. Durante o Inverno a temperatura era mais elevada dela que a da Alemanha, setentrional, mas no Verão era muito mais baixa. As precipitações anuais eram muito maiores do que actualmente, mas distribuídas duma maneira mais uniforme por todo o ano. Durante o Verão os ciclones extratropicais traziam chuvas intensas. A evaporação era menor. No, norte do país as zonas acima de 850 metros de altitude estavam desprovidas de florestas, limite esse que no sul subia para 1100 metros. A cotas inferiores dominava a floresta em que se encontravam com, certa frequência, "Pynus silvestris", "Fagus sylvatica", "Quercus robur", "Taxus baccata", "Ilex aquifolium", "Betula verrucosa", "Acer montana", "Crataegus monogyna", "Sorvus aucuparia", "Ccmus sanguinea", "Corylus avelana", "Pinus sp. ", "Malus sp. ", etc. Todavia algumas espécies subtropicais de folhas persistentes, conhecidas depois do Pliocénico, puderam sobreviver até aos nossos dias nalguns locais protegidos do sul do país. Na cordilheira central e nos planaltos do norte havia zonas cobertas apenas de arbustos e plantas herbáceas.
Ao contrário, nos tempos inter glaciares o clima de Portugal devia ser semelhante aos das regiões mediterrâneas ou ao da África do Norte, portanto um pouco mais quente do que o actual. O país devia estar coberto de florestas até aos planaltos elevados da Serra da Estrela, em que se encontrariam pinheiros mansos, azinheiras, zambujeiros, castanheiros, nogueiras, árvores de fruto e videiras. Nas regiões mais baixas predominavam as florestas de espécies de folhas persistentes e rijas do tipo mediterrâneo. A flora mediterrânea, com o "Rhododendron", devia estender-se até muito mais ao, norte, enquanto as espécies próprias das floras da Europa Ocidental e Central se deviam ter retirado para o norte do país ou para as montanhas do Sul, onde ainda hoje se encontram. A vegetação interglaciar era muito próxima da actual, sendo frequentemente difícil saber se uma flora é daqueles períodos ou de agora. Entre as espécies mais notáveis dos tempos interglaciares citam-se "Chamaerops humilis" e "Adiantum reniforme". Na fauna, além das espécies actuais havia rinocerontes, elefantes, hipopótamos, hienas e "Felis pardus". A presença de tufos calcários nos vales das ribeiras, dando lugar a cascatas, pequenas falésias, etc. é indicação, na opinião de Zbyszewski, dum clima subtropical marítimo do tipo mediterrâneo. Durante as épocas interglaciares o mar deve ter penetrado bastante no interior dos estuários dos principais rios e nas planuras do litoral (203).
Não parece, portanto, haver muitas dúvidas sobre a existência, nos períodos interglaciares, de condições favoráveis à rubefacção e mesmo até à ferralitização, que se realizaram em materiais de toda a natureza, quer calcários quer não calcários, segundo processos já atrás descritos.
Nesses períodos se devem ter formado as couraças ferruginosas que são frequentes em solos derivados de "rañas" e as argilas "tachetées" que se observam nestes e noutros Solos Mediterrâneos Vermelhos e Amarelos.
As couraças resultam duma acumulação de sesquióxidos livres, acumulação que pode ser absoluta, por chegada de tais compostos provenientes doutros horizontes do mesmo perfil ou doutros perfis, ou relativa, por migração de outros elementos, tais como bases, sílica, etc. (55).
Os sesquióxidos, especialmente os de ferro, desidratam-se e cristalizam depois e, por fim, endurecem.
Segundo Duchaufour (63) há três tipos de formação de couraças: de erosão, hidromórficas ou de toalha de água e de acumulação relativa.
As couraças de erosão são consequência da degradação de solos florestais por erosão dos horizontes superficiais provocado pela destruição da floresta pelo homem. O horizonte B desses solos, enriquecido em sesquióxidos de ferro por migração descendente e ascendente e por vezes oblíqua, acaba por aflorar à superfície e endurecer. São estas as couraças das savanas secundárias que ocupam vastas regiões em África.
As couraças de toalha de água ou hidromórficas são mais localizadas do que as anteriores e resultam de migração e concentração em certos horizontes dos óxidos de ferro existentes no estado ferroso numa toalha de água. Formam-se em zonas planas ou depressões em que a toalha freática é pouco profunda, migrando o ferro de baixo para cima, ou em locais de encostas em que o declive muda e aflora uma toalha de água. Em ambos os casos o ferro precipita, por oxidação, no estado férrico e predomina bastante sobre a alumina.
As couraças de acumulação relativa, as mais raras, resultam do desaparecimento quase completo da sílica e dos catiões cálcio, magnésio e potássio do solo com consequente concentração dos sesquióxidos de ferro e sobretudo de alumínio. Estas couraças exigem condições especiais para se formar, nomeadamente clima húmido, rocha-mãe básica, boa drenagem externa e ausência de cobertura florestal. Sob elas, ao contrário das dos tipos anteriores, não se observa a zona "tachetée".
As couraças encontradas em Solos Mediterrâneos Vermelhos e Amarelos derivados de "rañas" são todas do segundo tipo, quer de planura quer de encosta, e cobrem sempre zonas "tachetées". Apresentam talvez excessiva quantidade de quartzo, algum do qual é secundário.
As "rañas", segundo Ribeiro & Feio (162), são formações sedimentares de vários metros de espessura constituídas por quantidades maiores ou menores de fragmentos grosseiros angulosos ou imperfeitamente rolados (quartzitos, quartzo, xistos argilosos e metamórficos, lidites, serpentina, etc.) metidos numa massa argilosa ou argilo-arenosa de cor mais ou menos avermelhada em que se podem reconhecer elementos de xistos ou granitos. Os fragmentos grosseiros apresentam sempre uma grande variação de tamanhos, o que permite distingui-los dos terraços, e frequentem, ente têm uma superfície externa polida e uma "patine" avermelhada ou amarelada escura devida a uma concentração periférica dos óxidos de ferro provocado por desidratação. As "rañas" podem ser de planície ou de base de encosta; estas formaram-se sob um clima relativamente árido com chuvas impetuosas concentradas e violentas de modo a arrastar os materiais das encostas desnudas. Foram as rochas menos resistentes à meteorização (xistos argilosos e granitos) que deram origem aos materiais finos das "rañas". As condições que presidiram à formação destes materiais parecem ter sido idênticas às dos pedimentos áridos e semiáridos do oeste dos Estados Unidos e que predominaram no oeste ibérico, tendo as "rañas" sido depositadas em planuras produzidas por pedimentação à custa do recuo dos flancos das montanhas (162).
As "rañas" parecem enquadrar-se em Portugal no Pliocénico Superior, num período imediatamente anterior às variações climáticas do início do Quaternário e posterior aos últimos movimentos orogénicos (162). Nos períodos interglaciares, especialmente no Tirreniano e no Wurmiano, ter-se-ia então dado a rubefacção ou ferralitização dos solos e formado as couraças que hoje se observam (e até a "patine" dos elementos grosseiros).
Os Solos Mediterrâneos Vermelhos e Amarelos de Materiais Não Calcários apresentam muitas semelhanças com os "Rotlehms" de Kubiena (107), como se viu no estudo micromorfológico. Estes são descritos como solos fósseis existentes no sul da Europa de perfil A (B) C, com um horizonte A delgado e pobre em húmus; a espessura do horizonte (B) é pequena em comparação com a que é frequente nas regiões tropicais, onde tais solos são formações actuais. A sua textura é pesada, de grande coerência, compacidade e elasticidade. A massa fundamental dos "Rotlehms" é rica em ácido silícico coloidal que protege o hidróxido de ferro; este apenas em parte se apresenta irreversivelmente segregado em concreções, depósitos e manchas vermelhas. Nestes solos a desintegração química é forte e há pobreza de bases e de substâncias nutritivas. Quando há enriquecimento em carbonatos estes são de natureza secundária. Uma lavagem acentuada de sílica e uma separação geliforme do ferro podem dar lugar a uma forma de "Rotlehm", denominada "terrosa", de maior permeabilidade, menos pesada, de menor capilaridade e mais facilmente cultivável.
Nem todas as características dos solos portugueses deste Grupo permitirão a sua inclusão pura e simples nos "Rotlehms", mas não há dúvida de que mostram forte tendência para isso.
Frequentemente observam-se perfis de Solos Mediterrâneos Vermelhos e Amarelos de Materiais Não Calcários em que o horizonte A é, no todo ou em parte, constituído por um sedimento mais ou menos arenoso diferente do material originário da parte subjacente do solo. A presença de linhas de pedra confirma imediatamente a descontinuidade litológica. Todavia todo o conjunto está sob a alçada da pedogénese actual, orientada na formação do mesmo tipo de solo derivado de um único material originário.
Tomando em consideração a recente definição de Solos Ferruginosos (ou Fersialíticos) Tropicais (57), é indubitável que muitos dos solos portugueses estudados neste capítulo caiem dentro daquele agrupamento. E os que, por qualquer característica, tenham de ser dele excluídos não deixam por isso de se situar numa posição de "intergrade" para esses solos. A não ser que a circunstância de se desenvolverem em climas não tropicais os tenha forçosamente que separar a um nível taxonómico superior.
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DESERTOS

DESERTOS

O que é um deserto?

Existem muitos critérios para definir uma região biogeográfica desértica, mas o parâmetro mais importante é a aridez, pois a falta de água que limitará os processos biológicos naturais.
A maneira mais comum de avaliar a aridez é a utilização do “Índice de Aridez”, ou seja, a relação entre a Precipitação (P) e a Evapotranspiração (EVT) (Índice de Aridez = ).

A tabela a seguir apresenta uma classificação das áreas áridas e hiperaridas do planeta segundo o “Índice de Aridez”, podendo ser um critério para a definição dos desertos.

Classificação

Índice de Aridez
Área(10 6 km²)
Área(%mundo)
Hyperarido
< 0,05
10
7,5
Arido
0,05 - 0,20
16,2
12,1

Os desertos, representam um quinto (19,6%) da terra e se estendem sobre cerca de 33,7 milhões de km².

Os desertos podem também ser definidos a partir de um critério bio-ecológico, analisando a presença de algumas plantas características (“xerophilous life-forms”), ou seja, a cobertura vegetal do planeta. Qualquer que seja o critério considerado, as cartas dos desertos no planeta são muito parecidas.

De maneira resumida, um deserto será uma região que tem solos desnudos, com pouca cobertura vegetal, com um “Índice de Aridez” menor que 20%, e onde os animais e o vegetais mostram capacidades de adaptação evidentes.

Existem 3 grandes tipos de desertos: os desertos continentais, os desertos costeiros e os desertos tropicais. Essa divisão depende, em parte, da latitude (exposição solar), das condições meteorológicas e climáticas (circulações de massas de ar e dos oceanos) e da topografia (efeito de “rain shadow”).

Mudanças climáticas e Precipitações

Os desertos são caracterizados por condições climáticas extremas; além de uma exposição solar intensa, com temperaturas diurnas de até 80°C , seguida por noites frias (temperatura até - 20°C ), eles são submetidos a uma alternância de períodos breves de precipitações abundantes com períodos longos de secas intensas. Esse fenômeno é chamado de “Pulsos de chuva” (“Rainfall pulses”).

Apesar de serem raros e imprevisíveis, os “pulsos de chuva” são a “força” que estrutura os ecossistemas desérticos; é justamente essa heterogeneidade que favorece a grande biodiversidade destes ecossistemas desérticos. Como veremos mais a frente, os animais e os vegetais desenvolveram uma capacidade de adaptação para sobreviver nessas condições extremas.

Esses “pulsos de chuva” dependem das condições atmosféricas globais e dos fenômenos oceânicos. Dois importantes sistemas podem trazer chuvas aos desertos:
Tranporte horizontal (pelo vento) do ar úmido do mar para os continentes, durante o inverno, o que causa condensação sobre os continentes e precipitações. Essas precipitações são chamadas de “precipitações de inverno”.

Ascenção vertical (sobre os continentes) do ar quente, num processo chamado de convecção. As precipitações resultantes são chamadas “precipitações de verão”, ou monções.
As monções são localizadas nas regiões tropicais, enquanto as precipitações de inverno serão localizadas em latitudes mais altas.

Adaptações biológicas à aridez

A escassez de água e a aridez implicam uma seleção natural mais intensa nos desertos que em todos os outros lugares do mundo. Assim, o deserto é o primeiro ecossistema a ser estudado para entender o fenômeno de evolução.

Adaptações das plantas à aridez

As plantas desenvolvem diferentes estratégias para sobreviver sob as condições extremas dos desertos.

Podemos classificar as plantas em duas grandes categorias, segundo a estratégia de adaptação: (a) sobreviver às piores condições graças a um uso eficiente da água, ou (b) sobreviver de maneira efêmera aproveitando as melhores condições, usando a água para uma reprodução abundante.

Estratégia
Forma de adaptação
Características
Exemplo
Sobreviver as secas
Adaptação Morfologia e Metabolismo
1. Extração e uso extremamente eficiente da água2. Proteção contra evaporação3. Acumulo de água em tecidos
Cactus, Acacias,"True Xerophytes"
Sobreviver sob formas diferentes
Ciclo de vida efêmero
1. Uso rápido dos recursos abundantes e efêmeros2. Reprodução abundante

Essas plantas efêmeras têm um papel muito importante no ciclo ecológico sendo elas o alimento de base para muitas espécies animais.

Adaptações dos animais à aridez

O problema fisiológico mais básico para os animais dos desertos é manter o balanço hídrico do corpo, maximizando a entrada de água e minimizando a saída (através da urina, da respiração ou da transpiração).
Os camelos são um exemplo perfeito de uma adaptação a esse problema: eles podem beber uma quantidade de água enorme durante um tempo mínimo, causando uma diluição do sangue suficiente para causar morte para outros animais. Além disso, eles podem suportar uma elevação da temperatura do corpo até 44°C , o que minimiza a transpiração.
Um outro exemplo da minimização das perdas de água é a produção de urina muito concentrada, ou seja que contém muito pouco água.
Além das adaptações fisiológicas, anatômicas e morfológicas, os animais podem desenvolver um comportamento particular. Durante os períodos críticos de secas, enquanto certos animais (como muitas aves) vão migrar para outras regiões, os pequenos animais vão se esconder embaixo da terra durante o dia e buscar alimentos durante a noite.
No caso das serpentes, obrigadas a ficar no chão, onde a temperatura pode alcançar 80° C durante o dia, elas desenvolvem uma maneira particular de mover-se no chão, minimizando a superfície de contato com ele.
Os animais que não podem evitar o sol durante o dia adotam uma posição ótima para minimizar o impacto dos raios solares (ex: o esquilo).
Existem finalmente interações entre a fauna e a flora: as plantas podem fornecer abrigo para pequenos animais, enquanto os animais podem ajudar na regulação das plantas (ex: transporte do pólen pelos insetos). Essa interação entre a fauna e a flora significa que o desaparecimento de uma planta, por exemplo, pode levar ao desaparecimento de animais, e vice-versa.
O deserto e o homem

Os seres humanos habitam os desertos há tempos imemoriais, onde as atividades são definidas por seus parâmetros básicos: precipitações, essenciais para o crescimento de qualquer forma de vida, altas temperaturas e ventos fortes.

Da mesma maneira que os animais e as plantas, os homens se adaptaram para enfrentar essas condições extremas. Em vez de adaptações morfológicas ou fisiológicas, os seres humanos modificaram os seus comportamentos, e desenvolveram uma cultura e uma tecnologia especiais.
Para enfrentar as altas temperaturas (positivas e negativas), os povos dos desertos usam roupas que limitam a evaporação, geralmente de cor branca, para refletir os raios solares.
Calor, aridez e ventos fortes são também parâmetros importantes para a construção civil: paredes finas e pequenas janelas protegem do calor diurno, mas não protegem do frio noturno, e não podem resistir aos ventos intensos. Assim, barracas (ex: “yourte” na Mongólia) aparecem como uma boa solução para abrigar-se nos desertos.

Povos tradicionais dos desertos

(a) A caça e a colheita foram certamente os primeiros meios nos desertos (assim como no mundo inteiro) usados pelos seres humanos para sobreviver. Geralmente, uma árvore frutífera que dá frutos estocáveis constituía a base do regime alimentar, porque era possível o armazenamento e o deslocamento desses recursos. Antes da lenta evolução da agricultura e da pastoragem, a caça e a colheita foram o único modo de vida nos desertos.
(b) A criação de animais permite o aproveitamento de vários recursos, tais como o leite, a carne e a pele por exemplo. Podemos citar o camelo, que é o único animal domesticado nos desertos hiperaridos, porque ele pode suportar alta temperatura do corpo, e perdas de água que podem representar até 25% do seu peso total, recuperando essas perdas em apenas três minutos.
Cordeiros, cabras e bois, apesar de apresentarem menor adaptação, são também muitos importantes para os criadores.
Os criadores, assim como os caçadores, se deslocam muito a fim de procurar as regiões mais férteis do deserto.
(c) A agricultura se desenvolveu de maneira diferente segundo o tipo de deserto, sendo ela mais importante nos locais de maior precipitação. Os grandes rios perenes, tais como o Nilo, o Tigre e o Eufrates, abastecem os povos dos desertos, notadamente a irrigação, durante séculos.
Frente a essas condições extremas, os homens dos desertos mostraram engenhosidade para cultivar a terra: na área de irrigação, eles usaram sistemas de terraços sucessivos, ou micro drenagem, a fim de maximizar o aproveitamento da água. Por outro lado, foram escolhidas plantas que precisam de pouca água, tais como os cereais “Millet” e “Sorgo”.
Caça e Colheita, Criação de animais, e Agricultura foram os três grandes recursos usados pelos povos tradicionais dos desertos. O modo de vida atual nos desertos evoluiu muito nesse ultimo século, assim como a gestão dos recursos.

Povos “modernos” dos desertos

A gestão dos recursos para um desenvolvimento moderno nos desertos concentra-se em dois recursos principais: a água, que é limitada, e a energia, que é muito abundante.
Apesar de alguns grupos continuarem a viver de maneira tradicional, a maioria dos povos convertem-se para as novas atividades que se desenvolvem nos desertos: o turismo e a mineração.
(a) O turismo: os homens que continuam viver tradicionalmente estão se tornando “atrações” para as turistas que se interessam por essas culturas e esses modos de vida diferentes. No entanto, a maioria das pessoas vivendo de maneira tradicional converteram-se a fim de participar às novas atividades, tornando-se guias, ou trabalhando nos complexos turísticos.
(b) A mineração: Petróleo e urânio são também fontes de interesse para grandes empresas, o que favorece o desenvolvimento de regiões urbanas, que podem depender até 100% dos recursos importados, tais como alimentação e água.
Veremos mais a frente que os desertos têm também um impacto, uma influência importante nas pesquisas mundiais, notadamente na área da biologia.
Interações entre desertos e regiões não desérticas
Os desertos e o resto do planeta estão ligados por vários processos que vamos detalhar nesse parágrafo.

Processos físicos

(a) As relações entre os oceanos e a atmosfera determinam as precipitações nos desertos (pelos processos de transporte vertical ou horizontal do ar): os fenômenos cíclicos “El Niño” e “ La Niña ” são um bom exemplo dessa idéia, uma vez que afetam diretamente e de maneira significativa as precipitações dos desertos costeiros da América (ex: Atacama) e da Austrália.
(b) As mudanças climáticas globais afetam também os desertos: uma variação das precipitações, assim como um aumento das temperaturas foram registrados durante o período 1976-2000 (+0,45° em média). Uma redução das precipitações implica, de maneira resumida, uma redução da umidade do solo, e portanto da vegetação e da biodiversidade. Embora as mudanças globais impliquem em um aumento das temperaturas nos desertos, esses mesmos desertos estão paradoxalmente esfriando a atmosfera global, refletindo a radiação solar pelo espaço.
(c) Por outro lado, a “poeira dos desertos” está afetando o mundo inteiro: as pequenas partículas minerais são levadas pelo vento e transportadas a milhares de quilômetros de distância. Elas afetam a visibilidade, a saúde e até os processos de formação de chuva, assim como a produtividade de plânctons nos oceanos.
Por fim, os rios que escoam nos desertos, os “cross-desert rivers”, têm sempre as suas fontes numa zona não desértica, o que significa que uma modificação do clima na região da fonte irá afetar a vazão do rio no deserto.

Ligações entre homens dos desertos e os outros
Alem dos fluxos físicos, tais como a circulação do ar ou da poeira, existem fluxos de bens, de serviços e de homens através dos desertos.

(a) Uma quantidade importante de recursos renováveis e não renováveis são exportados dos desertos. Assim, eles contribuem para 50% da produção mundial de petróleo, 52% da extração de cobre, 38% da extração de bauxita e 33% da extração de diamante no mundo. Além desses recursos não renováveis, o clima nos desertos é favorável à cultura de certas plantas e à aqüicultura; eles também têm um importante potencial para a prospecção biológica (“Bioprospecting”), a flora desértica apresentando características biológicas interessantes para a medicina.
(b) O desenvolvimento do turismo e a industrialização favoreceu a urbanização dos desertos, ou seja, o crescimento das cidades na direção dos espaços abertos dos desertos (onde os terrenos são mais baratos).

Desertos como “corredores”

Os desertos são cortados por “corredores”, ou seja vias preferenciais usadas pelas caravanas de camelos e pelas aves.

(a) Muitos desertos são cortados por vias preferenciais, rotas de comércio, há milênios: geralmente, essas vias representam um conjunto de segmentos ligando oásis, e minimizando a distância entre dois pontos extremos de um deserto.
Além de permitir o trânsito de mercadorias, esses corredores constituem uma cadeia de comunicação, de informação e de troca cultural entre duas regiões não desérticas.
Apesar de um enfraquecimento desse trânsito a partir do século XVI (por causa da preferência para as rotas marítimas), essas vias estão conhecendo hoje uma modernização, devido principalmente ao desenvolvimento da indústria do turismo. Por outro lado, 60% do ópio afegão ainda transita pelos desertos.
(b) Milhares de aves são migratórias; indo do Norte para o Sul, elas geralmente têm que cruzar (duas vezes por ano) os desertos situados nas regiões subtropicais: esses itinerários preferenciais são chamados de “corredores de migração”.
Os gafanhotos também percorrem os desertos: durante a estação de chuva, eles se reproduzem de maneira intensa, um enxame pode contar com 50.000 milhões de gafanhotos. Deslocando-se graças ao vento, eles podem atingir regiões não desérticas e danificar até 100.000 toneladas de vegetação por dia.

O impacto dos desertos nas pesquisas mundiais

(a) De um certo ponto de vista, um deserto aparece como uma região adversa à todas formas de vida: é assim mesmo que os pesquisadores do espaço consideram o deserto, como um simulador para testar os equipamentos mandados depois ao espaço (ex: a NASA testou um robô no deserto do Atacama antes de manda-lo para Marte). O deserto aparece também como um reservatório de meteoritos, e uma base de observação para os astrônomos (ex: o VLT, “Very Large Telescope” no deserto do Atacama).
(b) Sendo eles o berço das três grandes religiões mundiais, os desertos enterram inúmeros tesouros culturais, arqueológicos e paleontológicos. Os desertos podem então ser visto como um laboratório natural a ser preservado.
(c) Devido às condições climáticas extremas, o deserto é um lugar privilegiado de uma evolução natural intensa (parte 3): a reposta fisiológica das plantas e a adaptação de comportamento dos animais são de primeiro interesse para compreender a teoria da evolução. Por outro lado, o ecossistema desértico aparece como um ecossistema simplificado (só tem um parâmetro importante: a água), o que favorece o entendimento dos mecanismos da diversidade e da cadeia alimentar entre animais e vegetais.

Desafios e oportunidades - Mudanças, Desenvolvimento e Conservação
A força da Mudança

(a) De maneira geral, a População tradicional dos desertos não vai evoluir muito; os criadores e os mineradores, assim como os povos rurais não conhecerão grandes mudanças no futuro. Todavia, a migração dos “povos modernos” vai continuar a aumentar nos próximos anos.
(b) Os Investimentos, que concernem principalmente as áreas de energia, de turismo, assim como o aproveitamento de regiões imensas (ex: treinamento militar ou testes nucleares), deverão conhecer um crescimento menor, por causa do esgotamento dos recursos ou da saturação do mercado turístico. Mas o aumento da demanda em Energia, e assim o aumento dos custos de gás e de petróleo, deverão favorecer os investimentos em energia.
(c) A evolução do Clima é também um parâmetro importante da equação: um grande aumento da temperatura da Terra pode afetar diretamente a presença de água nos desertos. Assim, o IPCC indica que as precipitações podem diminuir de 30% nas próximas décadas em alguns desertos da África. Como conseqüência direta, podemos destacar a diminuição da eficiência das colheitas, que levam riscos para a saúde humana.
(d) A Reabilitação de áreas degradas, por causa do sal por exemplo, será também um grande desafio para o futuro.
Finalmente, o controle e a racionalização do uso da água parecem cruciais a fim de evitar conflitos entre países onde já há escassez de água.

Desafios e Oportunidades de Desenvolvimento

(a) Água: em vez de investir em imensos projetos como foi realizado no passado, a tendência para o futuro será o desenvolvimento de melhores políticas de gestão e de distribuição da água. Assim, por exemplo, a cultura de produtos que consumem muita água (ex: algodão) deverá diminuir, assim como a construção de reservatórios para produção de energia elétrica ou lazer. O abastecimento de água será então melhorado somente por uma combinação de tecnologias novas (ex: irrigação por “microsprinklers” que permitem uma eficiência de 95%, reuso de água) com uma gestão eficiente.
(b) Turismo: esse setor representa uma grande oportunidade para o desenvolvimento dos desertos, mas investir nele tem riscos. Mas a instabilidade política de certos paises (ex: Namíbia, Chade) ou a alta taxa de criminalidade (ex: México) pode diminuir o número de visitantes. Da mesma forma, a recessão e os altos custos energéticos podem enfraquecer os investimentos. Só um eco turismo cuidadosamente definido e controlado terá potencial para contribuir ao desenvolvimento local.
(c) Uso do espaço: a grande disponibilidade de espaços combinado ao afastamento destes de qualquer forma de vida humana permite o desenvolvimento de projetos militares e espaciais (parte 5). As condições naturais hostis dos desertos justificam a implantação desses programas de treinamento nesses lugares. Esses grandes e vazios espaços têm também um potencial energético único; assim, a implantação de instalações de energia solar e eólica pode ser uma solução para a problemática energética mundial. Cientistas afirmam que a instalação de painéis solares sobre uma área de 800x800km no deserto do Saara produziria bastante energia para todo o planeta. Da mesma forma, agricultura, horticultura e aqüicultura têm um grande potencial nos desertos, por causa da intensidade das radiações solares e do ritmo das estações, caso haja bastante água.
Conservação e Uso Sustentável
Além de todas as perspectivas econômicas, energéticas e demográficas nos desertos, é importante analisar a evolução de parâmetros tais como a conservação do solo, a biodiversidade ou simplesmente a beleza natural.

(a) A agricultura e a criação de animais podem danificar definitivamente a estrutura do solo, favorecendo a erosão, o que aumenta a quantidade de sedimentos a serem transportados aos reservatórios. A agricultura favorece também a produção de poeira, que pode ser considerado como um poluente nos desertos, por causa da formação de tempestades de poeira. Assim, o controle da agricultura será um parâmetro importante a fim de conservar os desertos.
(b) Mas a irrigação será certamente uma prioridade muito maior na perspectiva de conservação dos desertos. O sistema de irrigação permitirá evitar a salinização dos solos, assim como a saturação destes em água. Isso significa uma otimização do dimensionamento da rede de irrigação de maneira a evitar a deposição de sal no solo (o que impede a entrada de água) e a saturação do solo em água.
(c) As regiões úmidas, e particularmente os rios perenes, são os lugares biologicamente mais ricos dos desertos. Conservar esses rios significa simplesmente assegurar um fluxo permanente de água de boa qualidade, limitando particularmente o fluxo de retorno de irrigação (que volta no rio) que tem maior salinidade depois da irrigação. Além disso, a presença de reservatórios afeta o regime de escoamento de um rio, assim como a biodiversidade a montante.
(d) O controle da caça e da criação de animais, e a definição de prioridade de conservação serão também parâmetros importante para a conservação da biodiversidade nos desertos. Historicamente, a caça é uma das maiores ameaças para a sustentabilidade das espécies, e hoje, uma grande parte destas esta sob ameaça de extinção.
Abastecimento de água, planejamento energético, conservação da biodiversidade, mudanças climáticas, controle do crescimento urbano: a gestão desses problemas interessa hoje a todas as regiões do mundo. Nesse relatório “Global Deserts Outlook”, percebemos a urgência de propor soluções para resolver essas grandes questões nos desertos. A escassez de água, por exemplo, é um problema de grande interesse nos desertos sabendo-se que sua disponibilidade é fraca. O futuro dos desertos, considerando como paisagens naturais e culturais, depende então de nossa capacidade de desenvolver bens e serviços sem degradar o meio ambiente. O bem estar humano (definido pelo “Millenium Ecosystem Assessment - MA)” e a sustentabilidade ambiental serão assim os dois primeiros parâmetros a serem levados em consideração antes de qualquer ação.
Finalmente, nossa gestão dos desertos pode ser considerada como um “teste” para o futuro, sabendo-se que a maioria dos problemas dos desertos vão se generalizar para o mundo inteiro daqui até algumas décadas (ex: escassez de água e de recursos naturais).

Fonte: www.brasilpnuma.org.br
Desertos

Os desertos apresentam localização muito variada e caracterizam-se por uma vegetação muito esparsa.

O solo é muito árido e a pluviosidade baixa e irregular, permanecendo abaixo de 250 mm anuais. Durante o dia a temperatura é alta, mas à noite ocorre perda rápida de calor, que se irradia para a atmosfera, e a temperatura torna-se excessivamente baixa. As plantas que se adaptam ao deserto geralmente apresentam um ciclo de vida curto. Durante o período favorável (chuvoso), observa-se uma vegetação sazonal, que cresce, floresce, frutifica, dispersa sementes e morre.
As plantas perenes, como os cactos, apresentam sistemas radiculares superficiais que cobrem grandes áreas. Essas raízes estão adaptadas para absorver as águas das chuvas passageiras. O armazenamento de água é muito grande (parênquimas aqüíferos). As folhas são transformadas em espinhos e o caule passa a realizar fotossíntese.
Os consumidores são predominantemente roedores, obtendo água do próprio alimento que ingerem ou do orvalho. No hemisfério norte, é muito comum encontrar, nos desertos, arbustos distribuídos uniformemente, como se tivessem sido plantados em espaços regulares. Esse fato explica-se como um caso de amensalismo, isto é, os vegetais produzem substâncias que eliminam outros indivíduos que crescem ao seu redor.

Fonte: www.objetivo.br
DESERTOS

Os desertos cobrem cerca de 31 milhões de km2 da superfície terrestre. a maior parte dessa área está compreendida na região do Saara e cerca de 2,6 milhões de km2 se acham no deserto do centro da Austrália, que é menos conhecido, porém maior que o deserto arábico.
Nos desertos quentes do tipo saariano, entre os quais se inclui o australiano, a temperatura durante o dia pode chegar a mais de 49ºC no verão (57ºC no deserto de Darakil, na Etiópia); as noites, por outro lado, são frias ou quase geladas. Nas zonas temperadas da Terra, de espaço a espaço ocorrem grandes áreas desérticas. Entre esses desertos estão o de Atacama, no litoral chileno, o do sudoeste norte-americano e sobretudo o de Gobi, no norte da China. Todos os desertos são grandes áreas de areia (dunas) ou rochas (planaltos) sem irrigação.
A maior parte da água pluvial que ocorre nessas regiões é absorvida pela areia ou se evapora sob a ação de ventos secos. somente nas franjas externas dos desertos se encontra alguma vegetação esparsa. Essa flora abrange plantas cujas raízes permanentes se cobrem de brotos depois de cada chuva e de cactos que armazenam água em seus ramos grossos e espinhosos. Essa vegetação oferece suprimento de água minguado e incerto para a fauna desértica.
Os animais estão protegidos contra a perda de água por sua pele sem poros (é o caso de artrópodes e répteis) ou pela ausência de glândulas sudoríparas (como ocorre com os esquilos terrestres da África). A maior parte desses animais (com exceção das aves migratórias) se refugia do calor e do frio enterrando-se na areia. Um metro abaixo da superfície, a temperatura é de 20ºC, não importa se a da superfície é de 60º ou 30ºC.
Os roedores só deixam suas tocas no princípio da noite e voltam quando a noite está fria. nos desertos temperados alguns animais têm hábitos noturnos no verão e diurnos no inverno.
Grandes mamíferos não existem ou são muitos raros: algumas gazelas e antílopes, além do camelo, com sua temperatura corporal variável e seu dom de armazenar água.
O impacto do homem sobre o deserto tem sido pouco significativo: algumas construções, uma ou outra trilha ou estrada e, mais recentemente, poços de petróleo. O horizonte muda pouco de uma geração para outra. Mas os desertos vão absorvendo pouco a pouco as planícies limítrofes.
Regiões hiperáridas, áridas e semi-áridas que ocupam mais de um terço da superfície terrestre – cerca de 50.000.000 km². O deserto do Saara (localizado no norte da África), o maior de todos, com 8.600.000 km², corresponde aproximadamente ao tamanho do Brasil e se estende pelo território de dez nações: Argélia, Chade, Egito, Líbia, Mali, Marrocos, Mauritânia, Níger, Tunísia e Sudão.As áreas desérticas do mundo têm crescido anualmente, por causa de fatores naturais e da ação do homem.

Características gerais

Os desertos possuem índices pluviométricos baixíssimos: menos de 100 mm de chuva anuais nas porções hiperáridas, menos de 250 mm nas partes áridas e entre 250 mm e 500 mm nas regiões semi-áridas. A grande maioria dos desertos do mundo é quente, mas existem também alguns desertos frios. Podem ser de dunas de areia, como o Takli Makan, no norte da China; de montanhas rochosas, como Gobi, situado entre a Mongólia e o nordeste da China; ou mistos, formados por uma combinação de dunas e montanhas. São poucas as espécies animais e vegetais adaptadas à escassez de água. Entre os animais destacam-se alguns mamíferos – como o camelo –, répteis e aracnídeos. Os tipos de vegetação mais freqüentes nas áreas desérticas são as estepes e a caatinga.

Desertos quentes

Caracterizam-se pelos contrastes térmicos entre o dia, extremamente quente, com temperatura que pode atingir mais de 50°C, e a noite, bastante fria em virtude da baixa umidade relativa do ar e da irradiação do calor para a atmosfera.
A maior parte dos desertos quentes do mundo, como o Saara e o Kalahari, no sudoeste da África, concentra-se ao longo dos trópicos de Câncer, no hemisfério norte, e de Capricórnio, no hemisfério sul. Essas regiões são propícias à aridez porque se localizam em zonas de alta pressão, onde o ar permanentemente seco impede a ocorrência de chuva. Já os desertos costeiros, como o da Namíbia, no sudoeste da África, e o Atacama, no norte do Chile, se originam da presença de correntes oceânicas frias, que inibem as precipitações. O Atacama é o recordista mundial em aridez: durante 45 anos, entre 1919 e 1964, não recebeu uma gota de chuva. Há também desertos próximos das cadeias montanhosas, que retêm a umidade, impedindo as precipitações. Um exemplo é o deserto da Grande Bacia, no sudoeste dos EUA.
Desertos frios

Apresentam temperatura média anual inferior a 18°C. Resultam dos mesmos fatores que originam os desertos quentes, mas são frios porque se localizam em regiões de média latitude (entre 40°C e 60°C). A aridez da Patagônia (sul da Argentina) e do deserto de Gobi, por exemplo, decorre da existência de cordilheiras. No caso de Gobi, a continentalidade, ou seja, a distância dos oceanos, também contribui para a falta de chuva.

DESERTOS

Em geografia, um deserto é uma forma de paisagem ou região que recebe pouca precipitação pluviométrica. Como conseqüência, os desertos têm a reputação de serem capazes de sustentar pouca vida. Comparando-se com regiões mais úmidas isto pode ser verdade, porém, examinando-se mais detalhadamente, os desertos freqüentemente abrigam uma riqueza de vida que normalmente permanece escondida (especialmente durante o dia) para conservar umidade. Aproximadamente 1/3 da superfície continental da Terra é deserto.
As paisagens desérticas têm alguns elementos em comum. O solo do deserto é principalmente composto de areia, e dunas podem estar presentes. Paisagens de solo rochoso são típicas, e refletem o reduzido desenvolvimento do solo e a escassez de vegetação. As terras baixas podem ser planícies cobertas com sal. Os processos de erosão eólica (isto é, provocados pelo vento) são importantes fatores na formação de paisagens desérticas.
Os desertos algumas vezes contêm depósitos minerais valiosos que foram formados no ambiente árido ou que foram expostos pela erosão. Por serem locais secos, os desertos são locais ideais para a preservação de artefatos humanos e fósseis.
Tipos de deserto
A maioria das classificações repousa numa combinação de número de dias de chuva por ano, a quantidade pluviométrica anual, temperatura, umidade e outros fatores. Em 1953, Peveril Meigs dividiu as regiões desérticas da terra em três categorias, de acordo com o total de chuva que recebiam. Por este sistema, hoje amplamente aceito, terras extremamente áridas são as que têm pelo menos 12 meses consecutivos sem chuva; terras áridas têm menos de 250 milímetros de chuva anual, e terras semi-áridas têm uma média de precipitação anual entre 250 e 500 milímetros. As terras áridas e extremamente áridas são os desertos, e terras semi-áridas cobertas de gramíneas geralmente são chamadas de estepes.
No entanto, a aridez sozinha não fornece uma descrição exata do que é um deserto. Por exemplo: a cidade de Phoenix, no Arizona recebe menos de 250 mm (10 polegadas) de chuva por ano, e é imediatamente reconhecida como sendo localizada em um deserto. Porém, algumas regiões gélidas do Alasca ou da Antártida também recebem menos de 250 mm de chuva por ano, e não podem ser consideradas desertos.
A diferença reside numa coisa chamada evapotranspiração. A evapotranspiração é a combinação de perda de água por evaporação atmosférica da água do solo, junto com a perda de água também em forma de vapor, através dos processos vitais das plantas. O potencial de evapotranspiração é, portanto, a quantidade de água que poderia evaporar numa dada região. A cidade de Tucson, no Arizona, recebe uns 300 mm (12 polegadas) anuais de chuva, no entanto, uns 2500 mm, (100 polegadas) de água poderiam evaporar no período de 1 ano. Em outras palavras, significa que quase 8 vezes mais água poderia evaporar da região do que normalmente cai. Já as taxas de evapotranspiração em regiões do Alasca são bastante inferiores; então, mesmo recebendo precipitações mínimas, estas regiões específicas são bem diferentes da definição mais simples de um deserto: um lugar onde a evaporação supera o total da precipitação pluviométrica.
Dito isto, há diferentes formas de desertos. Desertos frios podem ser cobertos de neve; estes locais não recebem muita chuva, e a que cai permanece congelada como neve compacta. Estas áreas são comumente chamadas de tundra, quando nelas existe uma curta estação com temperaturas acima de zero graus Celsius e alguma vegetação floresce neste período; ou de regiões de capa de gelo, se temperatura permanece abaixo do ponto de congelamento durante todo o ano, deixando o solo praticamente sem formas de vida.
A maioria dos desertos não-polares ocorre por que eles têm pouquíssima água. A água tende a refrescar, ou pelo menos a moderar, os efeitos do clima onde ela é abundante. Em algumas partes do mundo, os desertos surgem devido à existência de barreiras à chuva, quando as massas de ar perdem a maior parte de sua umidade sobre uma cadeia de montanhas; outras áreas são áridas em virtude de serem muito distantes das fontes mais próximas de umidade (isto é verdade em algumas áreas do Globo em latitudes médias, particularmente na Ásia).
Os desertos também são classificados por sua localização geográfica e padrão climático predominante, como ventos alísios, latitudes médias, barreiras anti-chuvas, costeiros, de monção, e polares. Antigas áreas desérticas presentes em regiões não-áridas formam os chamados paleodesertos. Há ainda os desertos extra-terrestres, em outros planetas.

Desertos em regiões de ventos alísios

Os ventos alísios ocorrem duas faixas do globo divididas pela Linha do Equador, e se formam pelo aquecimento do ar junto à região equatorial. Estes ventos secos dissipam a cobertura de nuvens, permitindo que mais luz do sol aqueça o solo. A maioria dos grandes desertos da Terra está em regiões cruzadas por ventos alísios. O maior deserto do nosso planeta, o Saara no norte da África, que já experimentou temperaturas de 57° C, é um deserto de ventos alísios.

Desertos de latitudes médias

Desertos de latitudes médias ocorrem entre os paralelos 30° e 50° N. e também na mesma faixa no hemisfério sul, em zonas de alta pressão subtropicais. Estes desertos estão em bacias de drenagem distantes dos oceanos e têm grandes variações de temperaturas anuais. O deserto de Sonora, no sudoeste da América do Norte é um típico deserto de latitude média. O deserto de Tengger, na China é um outro exemplo.

Desertos devido a barreiras ao ar Húmido

Desertos deste tipo se formam devido a grandes barreiras montanhosas que impedem a chegada de nuvens úmidas nas áreas a sotavento (ou seja, protegidas do vento, que traz a umidade). À medida em que o ar sobe a montanha, a água se precipita e o ar perde seu conteúdo úmido. Assim, um deserto se forma do lado oposto. O Deserto da Judéia em Israel e Palestina, são exemplos, assim como o deserto do Vale da Morte, nos EUA, que é formado pelos ventos Chinook que formam uma zona de sombra de chuva no local.

Desertos costeiros

Desertos costeiros geralmente são nas bordas ocidentais de continentes próximas aos Trópicos de Câncer e de Capricórnio. Eles são afetados por correntes oceânicas costeiras frias, que correm paralelas à costa. Devido aos sistemas de vento locais dominarem os ventos alísios, estes desertos são menos estáveis que os de outros tipos. No inverno, nevoeiros, produzidos por correntes frias ascendentes, freqüentemente cobrem os desertos costeiros com um manto branco que bloqueia a radiação solar. Os desertos costeiros são relativamente complexos, pois eles são o produto de sistemas terrestres, oceânicos e atmosféricos. Um deserto costeiro, o Atacama, é o mais seco da Terra. Nele, uma chuva possível de ser medida - isto é, de 1 mm ou mais - pode ocorrer uma vez a cada 5 ou até a cada 20 anos.
Dunas em forma de lua crescente são comuns desertos costeiros, como o Namib, na África, onde prevalecem os ventos do continente para o mar.

Desertos de monção

"Monção," derivada de uma palavra árabe que significa "estação climática", refere-se a um sistema de ventos com acentuada reversão sazonal. As monções se desenvolvem em resposta a variações de temperatura entre os continentes e os oceanos. Os ventos alísios do sul do Oceano Índico, por exemplo, despejam pesadas chuvas na Índia ao chegarem à costa. Conforme a monção cruza a Índia, ela perde sua umidade no lado oriental da cadeia montanhosa Aravalli. O deserto do Rajastão na Índia, e o deserto Thar no Paquistão, são parte de uma região de deserto de monção a oeste da cadeia de montanhas.

Desertos polares

Desertos polares são áreas com precipitação anual inferior a 250 mm e uma temperatura média no mês mais quente do ano inferior a 10° C. Os desertos polares do planeta cobrem quase 5 milhões de km2 e são principalmente leitos de rocha ou planícies de cascalho. Dunas de areia não são típicas destes desertos, porém dunas de neve comumente ocorrem em áreas onde a precipitação local é mais abundante. As mudanças de temperatura em desertos polares freqüentemente ultrapassam o ponto de congelamento da água. Esta alternância gelo-degelo deixa marcas características no solo, que chegam a 5 metros de diâmetro. Os vales secos da Antártida têm permanecido livres de gelo há milhares de anos. Em campos de gelo permanente se encontram ecossistemas simples. Sobre a neve antiga se desenvolvem algas, os nutrientes tendem a concentrar-se à medida que neve e gelo se evaporam. Algumas destas algas são de cor vermelha brilhante. Existem ecossistemas marinhos ativos no gelo e na água, debaixo do grande mar de gelo que cobre o oceano polar. Um ecossistema diversificado de algas e pequenos consumidores vive no lado inferior do gelo; estes sistemas utilizam luz solar que penetra no gelo durante o verão, como fonte de energia. As águas que fluem por debaixo do gelo também carregam matéria orgânica produzida em outros lugares, abastecendo de alimento uma grande população de peixes. Muitos mamíferos marinhos vivem de pescado; assim, focas, orças(baleias) e ursos polares estão no topo da cadeia alimentar polar.

Paleodesertos (desertos "fósseis")

Pesquisas em mares de areia (vastas regiões de dunas) antigos, mudanças em bacias lacustres, análises arqueológicas e de vegetação indicam que as condições climáticas mudaram consideravelmente em vastas áreas do planeta num passado geológico recente. Durante os últimos 12.500 anos, por exemplo, partes de alguns desertos já foram bem mais áridas do que são hoje. Cerca de 10% da terra situada entre a latitude 30° N. e 30° S. é hoje coberta por mares de areia. No entanto, 18.000 anos atrás, mares de areia formando dois imensos cinturões ocupavam quase 50% desta área. Tal como ocorre hoje, florestas tropicais e savanas ocupavam a zona entre estas duas faixas.
Sedimentos fósseis de desertos com até 500 milhões de anos foram encontrados em muitas partes do globo. Padrões de sedimentos de dunas foram encontrados em áres que hoje não são desérticas. Muitas destas "relíquias" de dunas hoje recebem entre 80 e 150 mm de chuva por ano. Algumas antigas regiões de dunas hoje são ocupadas por florestas tropicais úmidas.
As montanhas de areia chamadas Sand Hills são um campo de dunas inativo de 57.000 km2 no centro de Nebraska. O maior mar de areia no hemisfério ocidental está hoje estabilizado por vegetação, e recebe cerca de 500 mm de chuva por ano. As dunas de Sand Hills chegam aos 120 m de altura. O deserto do Kalahari também é um paleodeserto.

Desertos em outros planetas

Marte é o único dentre os outros planetas do sistema solar no qual já se identificou fenômenos eólicos. Apesar de sua pressão atmosférica na superfície ser apenas 1/100 da terrestre, os padrões de circulação atmosférica em Marte formaram um mar de areia circumpolar com mais de 5 milhões de km2, maior que os maiores mares de areia da Terra. Os mares de areia marcianos consistem principalmente de dunas em forma de meia-lua em áreas planas próximas à camada perene de gelo do pólo norte do planeta. Campos de dunas menores ocupam o fundo de muitas crateras nas regiões polares marcianas.
Definir um deserto somente pela ausência de chuva, ao invés de também considerar fatores eólicos, classificaria como tal todos os fenômenos similares a este fora do nosso planeta. O único corpo celeste onde se considera possível que exista precipitação é Titã, a lua de Saturno; ela não tem água em estado líquido, no entanto é possível que tenha metano e outros hidrocarbonetos em estado líquido.

Características dos desertos

A areia cobre apenas 20% dos desertos terrestres. A maior parte da areia está em lençóis de areia e bancos de areia--vastas regiões de dunas onduladas que lembram as ondas no mar.
Quase 50% das superfícies dos desertos são planícies onde a ação eólica - removendo os pequenos grãos de areia -expôs cascalho solto composto principalmente de pedriscos ásperos, mas às vezes com pedras arredondadas.

Outras superfícies de terras áridas são compostas de leitos de pedra aflorados e expostos, solos desérticos e depósitos fluviais, incluindo depósitos aluviais, leitos secos, lagos do deserto e oásis. Afloramentos de leitos de pedra normalmente ocorrem como pequenos montes, cercados por extensas planícies erodidas.

Oásis são áreas com vegetação irrigada por fontes subterrâneas, poços ou por irrigação. Muitos são artificiais. Os oásis são freqüentemente o único lugar nos desertos que permitem ao homem efetuar plantios e fixar moradia permanente.

Solos

Os solos que se formam em climas áridos são predominantemente minerais com pouca matéria orgânica. A repetida acumulação de água em alguns solos forma muitos depósitos de sal. O carbonato de cálcio precipitado de uma solução pode cimentar areia e cascalho em blocos duros, que chegam a ter espessuras de até 50 metros.
O caliche é um depósito avermelhado, quase marrom, ou tendente ao branco, encontrado em muitos solos de deserto. Ele normalmente ocorre em forma de nódulos ou como cobertura de grânulos minerais formados pela complicada interação entre a água e o gás carbônico liberado pelas raízes das plantas ou pela decomposição de matéria orgânica.

Vegetação

A maioria das plantas do deserto são tolerantes à seca e à salinidade, tais como as xerófitas. Algumas armazenam água em suas folhas, raízes e caules. Outras plantas do deserto têm longas raízes que penetram até o lençol freático, firmam o solo e evitam a erosão. Os caules e folhas de algumas plantas reduzem a velocidade superficial dos ventos que carregam areia, protegendo assim o solo da erosão.
Os desertos normalmente têm uma cobertura vegetal esparsa porém muito diversificada. O deserto de Sonora no sudoeste americano tem a vegetação desértica mais complexa da Terra. O gigantesco cactus saguaro fornece ninhos às aves do deserto e funciona como "árvore". O saguaro cresce lentamente mas pode viver 200 anos. Aos 9 anos, ele tem cerca de 15 cm de altura. Aos 75 anos, o cactus desenvolve seus primeiros ramos. Quando totalmente adulto, o saguaro chega a 15 metros de altura e pesa quase 10 toneladas. Eles povoam o deserto de Sonora e reforçam a impressão de que os desertos são áreas ricas em cactus.
Apesar dos cactus serem normalmente considerados plantas dos desertos, outros tipos de plantas se adaptaram à vida em meio árido. Isto inclui plantas da família da ervilha e do girassol. Os desertos frios têm como vegetação predominante gramíneas e arbustos.
Água
A chuva às vezes cai nos desertos, e tempestades no deserto freqüentemente são violentas. Um recorde de 44 mm em 3 horas de chuva já foi registrado no Saara. Grandes tempestades no Saara podem despejar quase 1 mm de chuva por minuto. Canais normalmente secos, chamados de arroios ou wadis, podem encher após chuvas pesadas, e chuvas rápidas os tornam perigosos.
Apesar de poucas chuvas caírem nos desertos, estes recebem água corrente de fontes efêmeras, alimentadas pela chuva e neve de montanhas adjacentes. Estas torrentes enchem os canais com uma camada de lama e freqüentemente transpotam consideraveis quantidades de sedimento por um ou dois dias. Apesar de a maioria dos desertos se situarem em bacias com drenagem fechada ou interior, uns poucos desertos são atravessados por rios 'exóticos', isto é, com nascentes e parte do curso fora da área desértica. Tais rios infiltram no solo e perdem por evaporação grandes quantidades de água large em suas jornadas pelos desertos, porém seus volumes de água são tais que mantêm sua perenidade. O rio Nilo, o Colorado e o Rio Amarelo são rios exóticos que correm em meio a desertos para levarem seus sedimentos até o mar.
Lagos se formam onde a chuva ou água de degelo no interior das bacias de drenagem é suficiente. Os lagos dos desertos são geralmente rasos, temporários e salgados. Por serem rasos e terem um gradiente de profundidade reduzido, a força do vento pode fazer as águas do lago se espalharem por vários quilômetros quadrados. Quando os pequenos lagos secam, deixam uma crosta de sal no fundo. A área plana formada com argila, lama ou areia encrustrada com sal, é conhecida como salar, ou, no México, "playa". Há mais de cem "playas" nos desertos norte-americanos. Muitas são relíquias de grandes lagos que existiram durante a última era glacial, quase 12.000 anos atrás. O Lago Bonneville era um lago com 52.000 km2 e quase 300 metros de profundidade entre Utah, Nevada e Idaho durante a última glaciação. Hoje os remanescentes do Lago Bonneville incluem o Grande Lago Salgado em Utah, o Lago Utah e o Lago Sevier. Como as "playas" de hoje são solos áridos formados durante um passado mais úmido, elas contêm pistas úteis sobre as mudanças climáticas.
Os terrenos planos do fundo de antigos lagos e "playas" os tornam excelentes pistas de corrida e de testes para aviões e veículos espaciais. Recordes de velocidade em veículos terrestres são comumente estabelecidos na chamada Bonneville Speedway, uma pista no fundo do Grande Lago Salgado. Ônibus espaciais pousam na "playa" de Rogers Lake, na base aérea de Edwards, na Califórnia.

Recursos minerais

Alguns depósitos minerais se formaram, foram enriquecidos ou preservados por processos geológicos que ocorrem em regiões áridas, como conseqüência do clima. A água no solo lixivia os minerais e os redeposita em zonas próximas ao lençol freático. Este processo de lixiviação concentra estes minerais em depósitos que podem ser minerados.
A evaporação em terras áridas aumenta a acumulação mineral em áreas onde se formam lagos temporários. Os salares ou "playas" podem ser fontes de depósitos minerais formados por evaporação. A evaporação em bacias fechadas precipita minerais tais como o gesso, sais (incluindo o nitrato de sódio ou salitre, e o cloreto de sódio), e os boratos. Os minérios formados nestes depósitos após evaporação dependem da composição e da temperatura das águas salinas no momento de sua formação.
Depósitos de evaporação significativos ocorrem no Deserto da Grande Bacia nos EUA, depósitos que ficaram famosos pela exploração e posterior transporte em lombo de mulas desde o Vale da Morte até a ferrovia. O boro, obtido do bórax e de boratos depositados, é um elemento essencial na manufatura de vidros, cerâmicas, esmaltes, produtos químicos para a agricultura e farmacêuticos. Grandes quantidades de boratos são extraídas de depósitos de evaporação na Califórnia.

O deserto do Atacama, no Chile, América do Sul, é único entre os desertos do mundo em termos de abundância de minerais salinos. O nitrato de sódio (salitre) foi explorado para a manufatura de explosivos e fertilizantes no Atacama desde meados do século XIX. Quase 3 milhões de toneladas métricas foram exploradas durante a Primeira Guerra Mundial.
Entre os minerais valiosos encontrados em zonas áridas temos o cobre nos desertos dos EUA, Chile, Peru e Irã; minérios de ferro, chumbo e zinco na Austrália; cromita na Turquia; além de depósitos de ouro, prata e urânio na Austrália e nos EUA. Minerais não metálicos tais como o berílio, a mica, lítio, argilas, pedra-pomes e escória também ocorrem em regiões áridas. O carbonato de sódio, sulfatos, boratos, nitratos e compostos de lítio, bromo, iodo, cálcio e estrôncio vêm de sedimentos e evaporação de águas salinas próximas à superfície, formadas por corpos subterrâneos de água, em geral durante períodos geológicos recentes.
A formação de Green River no Colorado, em Wyoming, e Utah contém depósitos aluviais e salares de evaporação criados num enorme lago cujo nível variou por milhões de anos. Depósitos economicamente importantes de soda (isto é, bicarbonato de sódio hidratado, uma importante fonte de compostos deste metal), e grandes depósitos de xisto betuminoso foram criados em ambientes áridos.
Algumas das áreas mais produtivas em petróleo na Terra são encontradas em regiões áridas e semi-áridas da África e do Oriente Médio, apesar de as jazidas de petróleo terem se formado originalmente no leito do mar. Mudanças climáticas recentes transformaram os locais destas jazidas em regiões áridas.
Outras jazidas de petróleo, entretanto, podem ter tido origem eólica, e atualmente são encontradas em zonas úmidas. A região de Rotliegendes, uma jazida de petróleo no Mar do Norte, está associada com extensos depósitos por evaporação. Muitas das principais jazidas petrolíferas dos EUA podem ter se originado entre areias levadas pelo vento. Antigos depósitos aluviais também podem ser reservatórios de hidrocarbonetos.

Alguns desertos no mundo

África
Deserto do Saara
Américas
Deserto de Atacama no Chile (América do Sul) Mojave, Sonora, Chihuahua (América do Norte)
Ásia-Pacífico
Deserto de Gobi ou deserto da Mongólia; Taklamakan (na China). Deserto de Kara Kum na Ásia Central. Kyzyl Kum no Casaquistão e Uzbequistão Negev no sul de Israel Deserto da Judéia leste de Israel e da Palestina os desertos da Austrália O deserto do Chile que é o mais quente do mundo
Fonte: pt.wikipedia.org
DESERTOS
MAIORES DESERTOS DO MUNDO
Ordem
Deserto
Continente
km2
1
Saara
África
8.396.000
2
Australiano
Austrália
1.549.000
3
Arábia (da)
Ásia
1.300.000
4
Gobi
Ásia
1.038.000
5
Kalahari
África
520.000
6
Turquestão
Ásia
360.000
7
Takla Makan
Ásia
321.000
8
Sonoran
América do Norte
310.000
9
Namib
África
310.000
10
Thar
Ásia
260.000
Fonte: www.diretoriadeitapevi.com.br
desertos
Os desertos constituem um componente natural de nosso meio ambiente. Alguns seres vivos foram aos poucos se adaptando para viver neles. Mas, atualmente, os desertos estão se expandindo, engolindo terras agrícolas e povoados, ameaçando plantas nativas e animais em extinção e criando desertos artificiais. Este problema tem implicações globais, já que vastas áreas de países subdesenvolvidos, dos Estados Unidos e da Austrália estão sendo seriamente afetadas.
A vida nos desertos
Há muitos seres vivos nos desertos, como pessoas, animais e plantas. Geralmente, eles têm comportamentos ou características especiais que lhes permitem sobreviver neles.
Vida noturna
Uma caravana de nômades tuaregues cruza o Saara. Como os nômades estão equipados para resistir ao sol?
Mesmo com suas excelentes adaptações, poucos animais conseguem sobreviver às severas temperaturas do dia. Eles permanecem dentro de abrigos durante a maior parte do dia, refugiando-se sob rochas ou em tocas, onde não é só mais fresco, como também mais abafado, o que permite que a própria respiração dos animais aumente a umidade do ar circundante. Dessa forma, o corpo deles perde menos água pela evaporação.
No caso do escorpião, é sua dura carapaça externa que o ajuda a obter umidade.
Quando o sol começa a se por, o deserto se agita. No Saara, o gerbo comum e o gerbo-saltador, com suas longas pernas, saem de suas tocas, à procura de sementes e restos vegetais. Também os caçadores aparecem: lagartixas correm entre as pedras procurando besouros, enquanto os fenecos, com suas grandes orelhas alertas, farejam o chão atrás dos odores que os levarão, com toda certeza, a um gerbo desatento.
Neste oásis da Tunísia, o deserto estéril foi transformado em terra fértil. Mas o deslocamento das dunas de areia do deserto é uma ameaça sempre presente.
A história é a mesma em qualquer deserto do mundo. Mudam somente os animais: no deserto da América do Norte, a raposa kit substitui o feneco; no Deserto Australiano, o rato-canguru toma o lugar do gerbo.
As noites, porém, são muito frias. Os animais que precisam do calor ambiente para manter a temperatura de seu corpo (animais de sangue frio, como lagartos, cobras, insetos e escorpiões) começam a ficar mais lentos quando a temperatura cai. Logo eles têm de parar de caçar e de procurar alimento e retirar-se para seus esconderijos até o dia seguinte. Mesmo os mamíferos de sangue quente – as raposas, os gerbos e os ratos – acham a temperatura noturna muito &ia para seu gosto e retornam para seus esconderijos e tocas bem antes que surja um novo amanhecer.
O tetraz da Namíbia encharca suas penas peitorais com água e a leva para seus filhotes.
O turno matutino
Quando o sol nasce, surge um novo grupo de animais. Nas terras secas do oeste norte-americano, o gila começa sua patrulha diária. Enquanto o sol aquece seu corpo atarracado, ele devora insetos, ovos de aves e até filhotes de pássaros. Na Austrália, o lagarto moloque tem de encontrar e consumir 7 mil formigas no café da manhã, sua única refeição no dia. O rápido aumento da temperatura o forçará, e aos outros animais do turno matutino, a voltar o quanto antes ao seu abrigo.
Como se expandem os desertos
Se os desertos são regiões naturais do planeta, qual é o problema? O problema é que eles estão cercados por vastas áreas de terras áridas e semi-áridas. Terras áridas significa realmente "secas", embora elas não sejam tão secas quanto os desertos: seu índice pluviométrico anual está em torno de 200-250 mm e o das semi-áridas, ao redor de 250-600 mm. Em geral, as chuvas caem todas numa determinada época do ano, mas, algumas vezes, elas falham e ocorre seca. As terras áridas e semiáridas normalmente são cobertas por pastagens ou pelo cerrado, com arbustos e árvores pequenas. São freqüentemente muito férteis e ideais para o cultivo e a criação de gado, e é aí que o problema começa.
Contabilizando o custo: este é o resultado humano da desertificação.
Todas as áreas sofrem mudanças naturais. Um campo, se não for cultivado, poderá eventualmente tornar-se uma floresta; um pequeno lago poderá se transformar gradualmente em terra seca, enquanto a vegetação se renova. As terras áridas e semiáridas também se modificam ao longo dos anos, dependendo de como são utilizadas e das mudanças no clima local. Elas podem passar de pastagem a um denso cerrado e, depois, voltar novamente a ser pastagem.
Essas mudanças não causam danos, pois fazem parte do ciclo da natureza, Uma mudança para pastagens ajudará o pecuarista a alimentar o gado; uma mudança para o cerrado favorecerá o fornecimento de lenha para a aldeia. Esse ciclo, porém, pode ser interrompido. Se o pecuarista tiver gado demais ou se os habitantes da aldeia cortarem lenha em excesso, um tipo diferente de mudança ocorrerá: a vegetação será afetada e se tornará mais rala; o solo ficará exposto, sendo mais facilmente levado pelas chuvas ou carregado pelo vento na estação seca. Esse processo é chamado erosão.
Até esse ponto, o dano pode ser revertido e o solo se recomporá se o pecuarista reduzir seus rebanhos ou se menos lenha for cortada. Do contrário, a parte fértil do solo – o solo arável – estará perdida e sua recuperação poderá tornar-se impossível. A mudança não é mais um ciclo, mas um declínio sem volta para a destruição. É assim que a desertificação – a expansão dos desertos – começa.
As áreas atingidas
Com tudo isso que acabamos de ver, é demasiadamente difícil imaginar a escala em que a expansão dos desertos está acontecendo. Entretanto, nos é possível obter alguns dados aterradores:
Um terço das terras emersas do planeta é árida ou semiárida, abrigando mais de 600 milhões de pessoas. Mais da metade delas está diretamente sujeita à desertificação.
A areia do deserto cobre esta rua numa aldeia do Chade.
A expansão dos desertos ocorre no mundo todo e afeta dois terços das nações da Terra. Não está limitada aos países em desenvolvimento, embora eles possam ser os mais atingidos por seus efeitos. Nos Estados Unidos, Canadá e México, estima-se que uma área de 10,5 milhões de km', maior que todo o continente africano ao sul do Saara (6,9 milhões de km²), esteja se tornando um deserto.
Os efeitos sobre as pessoas
A expansão dos desertos afeta as pessoas – em geral populações pobres da área rural, sem recursos e com pouca ou nenhuma terra. Talvez essa expansão comece por causa da falta de chuvas ou, quem sabe, devido ao empobrecimento gradual do solo, por ser tão exigido pela população. As sa&as falham, e o gado começa a morrer de fome ou de doenças. Os animais que sobrevivem são obrigados a buscar áreas maiores para sua alimentação, maltratando a terra; fazendeiros são forçados a irrigar terras montanhosas ou áreas antes consideradas inférteis demais para o cultivo; árvores são cortadas para fornecer forragem aos animais famintos; o vento começa a levar o solo seco e o deserto se espalha.
A adversidade, no entanto, está apenas começando. Eventualmente, as pessoas também precisam mudar-se, do contrário, poderão morrer de fome. Muitas ficam nos campos; outras vão para a cidade ou mesmo para outros países; algumas não conseguem chegar a lugar nenhum. Mesmo na cidade não há fim para o sofrimento: há falta de emprego, pouca comida, moradias miseráveis, excesso de população, condições anti-higiênicas e doenças. Esse é o resultado da expansão dos desertos para o homem.
Por que os desertos se expandem
Este capítulo analisa mais detalhadamente algumas das causas da desertificação e como elas se combinam para transformar uma situação já bastante difícil em outra impossível.
Mulheres triturando painço, no Mali, oeste africano. O painço, uma cultura tradicional, está adaptado para crescer em condições de semi-aridez.
Safras excessivas esgotam o solo
Embora as terras áridas e semiáridas sejam férteis, elas têm somente uma fina camada de húmus. Isso significa que não possuem grande quantidade de matéria orgânica (restos de plantas e resíduos animais). No passado, após quatro ou cinco anos de safras seguidas, a terra era deixada em pousio ou usada como pastagem para o gado por alguns anos. Durante esse tempo, o solo estaria protegido por uma cobertura vegetal, nutrientes vitais poderiam formar-se e a camada de húmus aumentaria.
Esse não era o único meio que os fazendeiros usavam para proteger a si mesmos e a suas terras. Diferentes plantações eram cultivadas para reduzir os riscos de um fracasso total nas colheitas; eram usadas espécies resistentes à seca, como o sorgo e o painço; esterco do gado criado por pastores nômades ajudava a recuperar o solo esgotado; cereais poderiam ser trocados, numa espécie de comércio, por carne. Além disso, havia também pequenas quantias de dinheiro que passavam de mão em mão continuamente.
Um mercado no Marrocos. Freqüentemente circula pouco dinheiro, pois os animais são trocados por grãos ou vegetais. É importante compreender que estes animais são, muitas vezes, a única forma de riqueza que os pastores produzem.Métodos como esses foram desenvolvidos por milhares de anos para fazer o melhor uso dos animais e plantas disponíveis, que desenvolveram meios de sobrevivência.
O fator humano
Nos últimos anos, as populações humanas cresceram muito em diversos países do mundo. Mais pessoas precisam de alimento, e isso significa que mais terras serão cultivadas ou aquelas já existentes serão cultivadas com maior intensidade. Como resultado, não serão aplicados os métodos tradicionais de agricultura; extensões de terras poderão diminuir ou mesmo desaparecer; áreas mais secas, adequadas a pastagens, serão usadas para o cultivo. Com isso, a fertilidade do solo cai e, portanto, ao invés de mais alimento, produz-se menos.
Culturas para exportação
Muitas culturas para exportação têm de ser mantidas usando-se fertilizantes e pesticidas.Até que ponto o agricultor está protegido contra os pesticidas?
Quando você toma chá ou café, come chocolate, banana, amendoim ou veste uma camiseta de algodão, talvez esteja contribuindo, indiretamente, para a expansão dos desertos.
Como? Todos os países precisam exportar para pagar as mercadorias que compram de outras nações. Alguns plantam produtos agrícolas que interessam aos outros países, mas que não são utilizados por eles mesmos. São as chamadas culturas para extração. Muitas vezes, um país pode exportar alimentos, enquanto seu povo passa fome. Por exemplo, durante a escassez no Sahel, nos anos 70, as exportações de itens alimentares cresceram, enquanto a população do país morria de fome. Uma situação similar ocorre no México, onde 80% das crianças da área rural estão subnutridas, enquanto o gado ingere mais grãos que a população inteira. Ironicamente, os animais são criados basicamente para exportação e terminam em hambúrgueres nos países ricos, como os Estados Unidos.
A erosão no Quênia é o resultado do excesso de pastagem. Agora a terra está estéril e as chuvas lavam-na rapidamente, formando profundos sulcos.
Nas melhores terras, muitas vezes, fazem-se culturas para exportação. Isso pode obrigar pequenos agricultores a trabalhar para os grandes proprietários ou a mudar-se para terras mais pobres. Além disso, as culturas para exportação geralmente não estão adaptadas ao clima e ao solo do lugar, sendo necessário o uso de fertilizantes e pesticidas. Quando os produtos químicos são usados em excesso, o solo sofre as conseqüências. Enquanto isso ocorre, as terras mais pobres, tendo de alimentar cada vez mais pessoas, transformam-se com maior rapidez em desertos.
É fácil verificar que sistemas como esses são injustos, mas também bastante complexos. Freqüentemente, os países envolvidos têm dívidas com as nações ricas da Europa e da América do Norte e necessitam desesperadamente de moedas fortes, como o dólar, para pagar suas contas. É importante entender que a expansão dos desertos não é somente uma questão de superpopulação ou de problemas climáticos; é também uma questão política.
Fonte: www.meusestudos.com